domingo, 8 de março de 2026

8 de março

 


Hoje não é um dia de celebrações vazias ou de flores que escondem o peso do cotidiano. A data de hoje carrega a marca do que ainda não foi resolvido. Ser mulher, em um sistema que tenta nos reduzir ao silêncio ou à utilidade, é um exercício contínuo de resistência, muitas vezes exaustivo e solitário.

As estatísticas de violência que nos cercam não são apenas números; são o sintoma de uma estrutura que se sente ameaçada pela nossa autonomia. Celebrar, nesse contexto, pode parecer um contrassenso, mas a verdadeira potência deste dia reside na recusa: a recusa em aceitar a barbárie como destino e a insistência em construir um sentido próprio para a existência, apesar de tudo.

Que este dia seja um convite à reflexão sobre os seus espaços de liberdade. Que nós mulheres possamos reconhecer a força que reside no ato de não se conformar, de nomear as próprias dores e de sustentar o próprio desejo em um mundo que, tantas vezes, tenta nos dizer quem devemos ser.

A luta não é apenas por sobrevivência, mas pelo direito à integridade e à profundidade de ser quem se é. Seguimos no trabalho de resgatar o que o medo tenta nos roubar.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Estreando uma postagem nova por aqui. Resolvi aproveitar o fato de que sou apaixonada por fotografias e vou usar esse espaço para postar mensalmente, alguns registros fotográficos feito ao longo dos dias. É uma forma de não deixar a vida passar em branco e me lembrar que a vida é boa, mesmo sendo tão ordinária na maioria das vezes. Vamos lá!



















Dias de chuva, raios e trovão.
Dias de feira
Comendo porcaria
Tentando deixar de comer porcaria
Comprei camisetas novas (e legais)
Florzinhas aqui da rua
Céu azul rompendo as nuvens cinzas
Entardecer alaranjado
Print do roblox onde gastei muitas horas brincanco com minha filha





Cartografia do mês de Fevereiro


O segundo mês do ano trouxe uma trégua na saúde, embora eu tenha conseguido a proeza de cortar a palma da mão direita na lida doméstica, esse "osso do ofício" de quem equilibra os papéis de psicóloga, mãe e dona de casa. Enquanto o mundo lá fora se perdia na cadência do Carnaval, meu refúgio foi o camarote do quarto. Entre o "bloco do sofá" e o silêncio das páginas, aproveitei a farra alheia para mapear novos sentidos.

Sobre livros e leituras

Uma das travessias literárias mais impactantes deste ano, até agora, foi "As Primas", de Aurora Venturini. Já compartilhei por aqui minhas impressões, mas a força daquela escrita argentina continua ressoando como um lembrete da estranheza que habita os laços de sangue.

Ainda em fevereiro, li via BibliON o livro "Uma Duas", de Eliane Brum. Sinceramente, não sei se devorei a obra ou se fui devorada por ela. É uma história indigesta, pesada, povoada por personagens problemáticas que compartilham narrativas igualmente densas. Brum escreve de maneira crua; ela não faz a menor questão de nos poupar. É como se quisesse esfregar a sujeira do real em nossa face, jogando o que há de mais abjeto no ventilador do consciente. É um livro feito de camadas de traumas, um convite ao desconforto que não recomendo levianamente — não por ser ruim, mas porque exige uma alma preparada para a estranheza. No fim, as palavras faltam, mas o sentir transborda.




Essa busca por entender a arquitetura do humano me levou a novas aquisições para a estante. Comprei de António Damásio as obras "O Erro de Descartes" e "Sentir e Saber". Como psicóloga, revisitar Damásio é essencial para reafirmar que não somos seres puramente racionais, mas corpos que sentem e, a partir desse sentir, constroem a consciência.

Em contraste com a biologia da mente, busquei o bálsamo de Hermann Hesse, adquirindo "Felicidade" e "Sidarta". Hesse sempre me conduz a um olhar fenomenológico sobre a busca pelo eu.

Momento pipoca

Finalmente assisti a "Hamnet". A narrativa é de uma sensibilidade cortante. Só não chorei porque a fluoxetina estabeleceu um limite químico para o meu luto vicário. Há algo de profundamente existencial em ver a dor ser transformada em arte, mesmo quando estamos, momentaneamente, impedidos de transbordar pela via das lágrimas.

Outros links

Até o próximo mês 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

As Primas: O que aprendi com as mulheres de Aurora Venturini



Ontem eu devorei um livro. Não há outra palavra para descrever o que aconteceu entre mim e As Primas, de Aurora Venturini. Foi um encontro visceral, daqueles que nos tiram o chão e, ao mesmo tempo, nos obrigam a olhar para as nossas próprias sombras. Pela primeira vez, vi o mundo através dos olhos de Yuna, uma narradora que habita um corpo e uma mente marcados pelo que a sociedade convencionou chamar de "retardo". Mas o que encontrei ali foi uma lucidez que muitos de nós, ditos "normais", passamos a vida tentando evitar.

Naquela casa de mulheres, a deficiência não é um adereço trágico; é a base existencial de cada uma. E o que mais me paralisou, e me fez confrontar meu próprio preconceito, foi Petra. Nunca havia lido sobre uma mulher com nanismo sob essa ótica. Percebi que, inconscientemente, a nossa cultura tende a dessexualizar ou infantilizar corpos assim. Mas Petra explode essa bolha. Ela é prostituta, exerce a "profissão mais antiga do mundo" com uma consciência brutal de seu lugar no mercado dos desejos alheios. Homens se relacionam com ela, a desejam, a procuram.

O que mais me impactou não foi apenas a existência de seu desejo, mas a ausência de qualquer "santidade" em sua condição. Petra é cruel, é vingativa, é humana em sua plenitude mais obscura. Muitas vezes, projetamos no deficiente uma aura de vítima ou de pureza, como se o sofrimento físico os blindasse da maldade. Venturini nos mostra o contrário: o ser humano, afetado ou não por limitações, é capaz de uma crueza absoluta. A deficiência não santifica; às vezes, ela apenas aguça o instinto de sobrevivência e o rancor.

A história de Betina me trouxe um mal-estar familiar, aquele que lemos em rodapés de jornais ou ouvimos em sussurros na vizinhança. O abuso cometido pelo tal professor, o "cuidador", expõe um fetiche perverso que a nossa clínica e a vida cotidiana insistem em esconder: o prazer masculino no controle sobre o indefeso. Há algo de profundamente doentio na figura desse homem que se aproveita da incapacidade de defesa de Betina. É o exercício do poder em sua forma mais covarde. Betina, grávida e abusada, torna-se o símbolo de como a vulnerabilidade extrema atrai predadores que se vestem de instrução e "cuidado".

Psicologicamente, a casa de Yuna é um deserto de afeto. Sua mãe é a imagem da negligência, incapaz de oferecer o olhar que valida a existência do outro. Em uma linhagem de mulheres "desajustadas", não há colo; há apenas a convivência áspera. Yuna, porém, encontra na arte, na pintura, a sua via de sublimação. Ela não se "cura", ela se traduz. Ela pinta o horror para não ser engolida por ele.

No fim, As Primas não é um livro sobre "superação". É um livro sobre a deformidade que todos carregamos. Saio dessa leitura com o gosto amargo da verdade: somos todos precários, e a nossa capacidade de ser cruéis ou de sermos abusados habita o mesmo terreno onde tentamos cultivar a nossa dignidade.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Angústia - Graciliano Ramos


Escrevi o texto abaixo em um momento de desajuste emocional. Pensei em filtrar, recortar alguns trechos, maquiar ou até mesmo reescrever, mas tiraria toda verdade do que realmente senti e pensei no momento em que terminei a leitura. Então fui demasiada humana nessa narrativa. Não quero ocultar a minha angústia e crueza. Contém spoiler. Você foi avisado(a). 

Li Angústia, de Graciliano Ramos, e notei um quê de Dostoiévski nessa narrativa. Um personagem cru, fuleiro, ferrado. Um cenário caótico de um Brasil que não mudou muito. Personagens medonhos, secos, esmiuçados como se suas tripas estivessem sendo expostas, tal qual a gente faz quando prepara uma galinha para assar. Tive dó do Luís, e um pouco de nojo também. Não nutri nenhum afeto positivo pela Marina. Nem mesmo quando ela engravidou do cretino pelo qual trocou o Luís. Gente burra merece se foder (e aqui é meu preconceito falando). Dó mesmo eu tive da velhinha surda que enterrava moedas no quintal. Algumas páginas eu fui apenas passando os olhos, com rapidez e sem interesse. Em alguns pontos, eu só queria que toda a história acabasse logo. Ficou enfadonho, pois estou doente e com os olhos cansados após duas semanas de conjuntivite. Mas terminei até contente, porque Luís fez o que queria fazer. Não, eu não fiz uma leitura dinâmica. Eu fiz uma leitura em sofrimento. Acredite, é diferente. 

Luís da Silva é o arquétipo do homem do subsolo tropical, ruminando o próprio fel, preso em uma teia de ressentimento que o imobiliza. Passamos o livro todo dentro da cabeça dele, ouvindo o chiar daquela mente obsessiva, e isso causa uma náusea quase física, que, misturada à minha conjuntivite, tornou a leitura uma experiência febril.

O ato final, o estrangulamento, surge não como uma crueldade gratuita, mas como um espasmo de vida no meio da morte social. É a passagem ao ato de um sujeito que foi castrado pela burocracia, pela pobreza e pela mediocridade de uma classe média decadente. Quando ele aperta a corda, ele não está matando apenas o Julião Tavares; ele está tentando matar a própria impotência. Ele tenta silenciar o ruído que o atormenta.

Graciliano não nos dá redenção, nem heróis. Ele nos joga na cara a sujeira que tentamos esconder debaixo do tapete. O tédio que senti em algumas páginas não foi apenas cansaço visual; foi o contágio da monotonia asfixiante da vida de Luís. É um livro que não se lê impunemente; a gente sai dele sentindo a necessidade de um banho, para tirar a fuligem da alma e essa sensação pegajosa de que, no fundo, todos carregamos um pouco desse lixo psíquico que o autor expôs como vísceras de galinha.

E essa náusea de que falo não é a intelectualizada de Sartre, limpinha e filosófica. A náusea em Angústia tem cheiro de mofo, de roupa suja, de quarto fechado no calor de Maceió. É física. A paralisia do Luís não vem da falta de vontade, mas do excesso de consciência. Ele vê demais, sente demais, e o mundo ao redor é grotesco demais para ser digerido. É como se a realidade fosse aquele pedaço de carne dura que não desce nem sobe, fica entalado na garganta.

"(...) Afinal tudo desaparece. E, inteiramente vazio, fico tempo sem fim ocupado em riscar as palavras e os desenhos. Engrosso as linhas, suprimo as curvas, até que deixo no papel alguns borrões compridos, umas tarjas muito pretas."

O que me pegou, analisando com meus olhos clínicos, mas também com meu cansaço de gente, é como a obsessão dele funciona como uma lupa que deforma tudo. O cenário brasileiro, essa estagnação que eu citei, não é só pano de fundo; é o cárcere. Luís é um funcionário público medíocre num país medíocre, e a única liberdade que lhe resta é a violência. O ato de matar o Julião Tavares foi, ironicamente, a única obra 'criativa' que ele conseguiu parir. O resto foi rascunho, foi frustração, foi aquele rememorar azedo de quem não consegue esquecer o que perdeu.

Talvez o que me incomode tanto na Marina não seja só a futilidade dela, mas o fato de que ela escolheu a ignorância. Ela escolheu a superfície. Enquanto Luís afunda no próprio lodo psíquico, ela flutua na banalidade. E, às vezes, a gente que lida com a dor humana o dia todo tem uma impaciência secreta com quem vive na superfície, fingindo que o abismo não existe. No fim, Graciliano me deixou com essa sensação de que a civilidade é só uma casca fina. Qualquer arranhão, e as tripas aparecem. E nem sempre é bonito de ver, mas é a única coisa que é real.


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