Escrevi o texto abaixo em um momento de desajuste emocional. Pensei em filtrar, recortar alguns trechos, maquiar ou até mesmo reescrever, mas tiraria toda verdade do que realmente senti e pensei no momento em que terminei a leitura. Então fui demasiada humana nessa narrativa. Não quero ocultar a minha angústia e crueza. Contém spoiler. Você foi avisado(a). Li
Angústia, de Graciliano Ramos, e notei um quê de Dostoiévski nessa narrativa. Um personagem cru, fuleiro, ferrado. Um cenário caótico de um Brasil que não mudou muito. Personagens medonhos, secos, esmiuçados como se suas tripas estivessem sendo expostas, tal qual a gente faz quando prepara uma galinha para assar. Tive dó do Luís, e um pouco de nojo também. Não nutri nenhum afeto positivo pela Marina. Nem mesmo quando ela engravidou do cretino pelo qual trocou o Luís. Gente burra merece se foder (e aqui é meu preconceito falando). Dó mesmo eu tive da velhinha surda que enterrava moedas no quintal. Algumas páginas eu fui apenas passando os olhos, com rapidez e sem interesse. Em alguns pontos, eu só queria que toda a história acabasse logo. Ficou enfadonho, pois estou doente e com os olhos cansados após duas semanas de conjuntivite. Mas terminei até contente, porque Luís fez o que queria fazer. Não, eu não fiz uma leitura dinâmica. Eu fiz uma leitura em sofrimento. Acredite, é diferente.
Luís da Silva é o arquétipo do homem do subsolo tropical, ruminando o próprio fel, preso em uma teia de ressentimento que o imobiliza. Passamos o livro todo dentro da cabeça dele, ouvindo o chiar daquela mente obsessiva, e isso causa uma náusea quase física, que, misturada à minha conjuntivite, tornou a leitura uma experiência febril.
O ato final, o estrangulamento, surge não como uma crueldade gratuita, mas como um espasmo de vida no meio da morte social. É a passagem ao ato de um sujeito que foi castrado pela burocracia, pela pobreza e pela mediocridade de uma classe média decadente. Quando ele aperta a corda, ele não está matando apenas o Julião Tavares; ele está tentando matar a própria impotência. Ele tenta silenciar o ruído que o atormenta.
Graciliano não nos dá redenção, nem heróis. Ele nos joga na cara a sujeira que tentamos esconder debaixo do tapete. O tédio que senti em algumas páginas não foi apenas cansaço visual; foi o contágio da monotonia asfixiante da vida de Luís. É um livro que não se lê impunemente; a gente sai dele sentindo a necessidade de um banho, para tirar a fuligem da alma e essa sensação pegajosa de que, no fundo, todos carregamos um pouco desse lixo psíquico que o autor expôs como vísceras de galinha.
E essa náusea de que falo não é a intelectualizada de Sartre, limpinha e filosófica. A náusea em Angústia tem cheiro de mofo, de roupa suja, de quarto fechado no calor de Maceió. É física. A paralisia do Luís não vem da falta de vontade, mas do excesso de consciência. Ele vê demais, sente demais, e o mundo ao redor é grotesco demais para ser digerido. É como se a realidade fosse aquele pedaço de carne dura que não desce nem sobe, fica entalado na garganta.
"(...) Afinal tudo desaparece. E, inteiramente vazio, fico tempo sem fim ocupado em riscar as palavras e os desenhos. Engrosso as linhas, suprimo as curvas, até que deixo no papel alguns borrões compridos, umas tarjas muito pretas."
O que me pegou, analisando com meus olhos clínicos, mas também com meu cansaço de gente, é como a obsessão dele funciona como uma lupa que deforma tudo. O cenário brasileiro, essa estagnação que eu citei, não é só pano de fundo; é o cárcere. Luís é um funcionário público medíocre num país medíocre, e a única liberdade que lhe resta é a violência. O ato de matar o Julião Tavares foi, ironicamente, a única obra 'criativa' que ele conseguiu parir. O resto foi rascunho, foi frustração, foi aquele rememorar azedo de quem não consegue esquecer o que perdeu.
Talvez o que me incomode tanto na Marina não seja só a futilidade dela, mas o fato de que ela escolheu a ignorância. Ela escolheu a superfície. Enquanto Luís afunda no próprio lodo psíquico, ela flutua na banalidade. E, às vezes, a gente que lida com a dor humana o dia todo tem uma impaciência secreta com quem vive na superfície, fingindo que o abismo não existe. No fim, Graciliano me deixou com essa sensação de que a civilidade é só uma casca fina. Qualquer arranhão, e as tripas aparecem. E nem sempre é bonito de ver, mas é a única coisa que é real.