quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

As Primas: O que aprendi com as mulheres de Aurora Venturini



Ontem eu devorei um livro. Não há outra palavra para descrever o que aconteceu entre mim e As Primas, de Aurora Venturini. Foi um encontro visceral, daqueles que nos tiram o chão e, ao mesmo tempo, nos obrigam a olhar para as nossas próprias sombras. Pela primeira vez, vi o mundo através dos olhos de Yuna, uma narradora que habita um corpo e uma mente marcados pelo que a sociedade convencionou chamar de "retardo". Mas o que encontrei ali foi uma lucidez que muitos de nós, ditos "normais", passamos a vida tentando evitar.

Naquela casa de mulheres, a deficiência não é um adereço trágico; é a base existencial de cada uma. E o que mais me paralisou, e me fez confrontar meu próprio preconceito, foi Petra. Nunca havia lido sobre uma mulher com nanismo sob essa ótica. Percebi que, inconscientemente, a nossa cultura tende a dessexualizar ou infantilizar corpos assim. Mas Petra explode essa bolha. Ela é prostituta, exerce a "profissão mais antiga do mundo" com uma consciência brutal de seu lugar no mercado dos desejos alheios. Homens se relacionam com ela, a desejam, a procuram.

O que mais me impactou não foi apenas a existência de seu desejo, mas a ausência de qualquer "santidade" em sua condição. Petra é cruel, é vingativa, é humana em sua plenitude mais obscura. Muitas vezes, projetamos no deficiente uma aura de vítima ou de pureza, como se o sofrimento físico os blindasse da maldade. Venturini nos mostra o contrário: o ser humano, afetado ou não por limitações, é capaz de uma crueza absoluta. A deficiência não santifica; às vezes, ela apenas aguça o instinto de sobrevivência e o rancor.

A história de Betina me trouxe um mal-estar familiar, aquele que lemos em rodapés de jornais ou ouvimos em sussurros na vizinhança. O abuso cometido pelo tal professor, o "cuidador", expõe um fetiche perverso que a nossa clínica e a vida cotidiana insistem em esconder: o prazer masculino no controle sobre o indefeso. Há algo de profundamente doentio na figura desse homem que se aproveita da incapacidade de defesa de Betina. É o exercício do poder em sua forma mais covarde. Betina, grávida e abusada, torna-se o símbolo de como a vulnerabilidade extrema atrai predadores que se vestem de instrução e "cuidado".

Psicologicamente, a casa de Yuna é um deserto de afeto. Sua mãe é a imagem da negligência, incapaz de oferecer o olhar que valida a existência do outro. Em uma linhagem de mulheres "desajustadas", não há colo; há apenas a convivência áspera. Yuna, porém, encontra na arte, na pintura, a sua via de sublimação. Ela não se "cura", ela se traduz. Ela pinta o horror para não ser engolida por ele.

No fim, As Primas não é um livro sobre "superação". É um livro sobre a deformidade que todos carregamos. Saio dessa leitura com o gosto amargo da verdade: somos todos precários, e a nossa capacidade de ser cruéis ou de sermos abusados habita o mesmo terreno onde tentamos cultivar a nossa dignidade.

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