Tem uma expectativa que me segue desde que comecei a falar sobre raça publicamente, seja aqui no blog, nas redes sociais ou dentro do consultório quando o assunto escapa pela janela da clínica e vai parar na calçada da vida real. A expectativa é simples, ou melhor, ela parece simples: eu sou mulher negra, então devo defender mulher negra. Qualquer mulher negra. Sempre.
Não importa o que ela fez. Não importa como ela se comportou. Não importa se ela mentiu, manipulou, humilhou alguém, agiu de má-fé. Se ela é negra e está sendo julgada, minha posição já deveria estar definida antes mesmo de eu pensar.
Quando o BBB ainda estava fervilhando, eu me peguei numa situação dessas. Defendi Milena, uma mulher negra com uma trajetória marcada pelo racismo estrutural, pela pobreza, pelo que o Brasil reserva pra quem nasce onde ela nasceu, onde eu nasci. Não só defendi como torci por ela, mas isso mudou quando as atitudes dela mudaram dentro do programa. Eu entendia de verdade a importância e da necessidade dela ganhar o grande prêmio final, da representatividade dela ali dentro. Mas dentro da casa, nas dinâmicas do jogo, eu mudei de ideia após alguns comportamentos da Milena que distoavam totalmente dos meus princípios de lealdade, e passei a torcer pela Ana Paula, loira, branca, de família rica, tudo que eu "não deveria" querer ver vencendo.
Me julgaram por isso.
Apoiar Ana Paula não significava apagar o racismo que a Milena sofre. Significava que eu assisti ao programa, vi os comportamentos, e fiz a leitura que fiz. Que eu, como qualquer pessoa que pensa, posso concordar que o sistema é racista e ainda assim discordar das atitudes de uma pessoa específica. Que a história de vida de alguém, por mais pesada que seja, não funciona como blindagem automática pra tudo que ela faz.
E é aí que a coisa fica complicada, porque eu sei o tamanho do que estou dizendo.
Cresci no nordeste, na periferia, num contexto em que a solidariedade coletiva era uma das poucas ferramentas que temos. A gente se fecha, se protege, porque o mundo de fora já está contra a gente. Eu carrego isso no corpo. Entendo visceralmente por que a ideia de "não abandonar os seus" é tão forte, tão emocional, tão ligada à sobrevivência.
Mas solidariedade não é lealdade cega. E confundir as duas coisas tem um custo que a gente raramente discute.
Quando exigem que eu defenda alguém só pela raça compartilhada, estão, no fundo, me pedindo pra suspender meu juízo crítico. Estão me pedindo pra tratar mulheres negras como um bloco homogêneo, sem individualidade, sem responsabilidade sobre suas próprias escolhas. E paradoxalmente, isso é uma forma de desumanização, a mesma que a gente diz combater.
Nenhuma análise racial séria ignora que o sistema pune mulheres negras com mais dureza. Sei que o olhar do público sobre Milena carregava julgamentos que não teriam o mesmo peso sobre uma mulher branca. Sei que a lupa que recai sobre nós é diferente. Esse ponto é real, é documentável, é inegociável.
Mas uma coisa não cancela a outra. Reconhecer o racismo do olhar externo não me obriga a achar que todos os comportamentos foram adequados. E torcer pra quem eu quiser num programa de televisão não é traição racial.
O que me incomoda de verdade nessa dinâmica é o que ela revela: que muita gente quer de mim uma postura de porta-voz coletiva, não de sujeita pensante. Que eu fale pela comunidade, que eu proteja a narrativa, que eu não dê munição pro lado errado. Como se minha função fosse administrar a imagem do movimento e não ter opiniões minhas.
Sendo psicóloga, vejo muito isso no consultório também, a maneira como o pertencimento a um grupo pode se tornar uma prisão afetiva. A pessoa deixa de confiar no próprio julgamento porque tem medo de ser expulsa do coletivo. Isso não é consciência política. É medo disfarçado de lealdade.
Eu não vou fingir que isso é simples. Não é. É uma tensão real, que mora em mim também. Cada vez que discordo de algo dentro de espaços negros, tem uma voz interna que pergunta se estou errando, se estou sendo usada, se estou facilitando a vida de quem nos odeia. Essa voz existe por uma razão histórica. Não vou descartá-la.
Mas também não vou deixar que ela engula minha capacidade de pensar por mim mesma.
Solidariedade racial é necessária, urgente, insubstituível. Ela existe porque o mundo precisa que exista. Mas solidariedade não significa ausência de discernimento. Significa que quando uma de nós cai, a gente pergunta o porquê antes de virar as costas. Significa que a história de vida importa na leitura, mas não apaga a responsabilidade individual. Significa que posso querer um mundo justo pra todas as mulheres negras e ainda assim não concordar com o que uma delas específica fez numa situação específica.
Ninguém me deu o cargo de guardiã da coerência racial alheia. E, honestamente, não quero esse cargo.
O que eu quero é poder pensar. Com tudo que sou, com tudo que vivi, com tudo que aprendi. E que isso não me torne suspeita.
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