sexta-feira, 24 de abril de 2026

Solidariedade não é cheque em branco

 




Tem uma expectativa que me segue desde que comecei a falar sobre raça publicamente, seja aqui no blog, nas redes sociais ou dentro do consultório quando o assunto escapa pela janela da clínica e vai parar na calçada da vida real. A expectativa é simples, ou melhor, ela parece simples: eu sou mulher negra, então devo defender mulher negra. Qualquer mulher negra. Sempre.

Não importa o que ela fez. Não importa como ela se comportou. Não importa se ela mentiu, manipulou, humilhou alguém, agiu de má-fé. Se ela é negra e está sendo julgada, minha posição já deveria estar definida antes mesmo de eu pensar.

Quando o BBB ainda estava fervilhando, eu me peguei numa situação dessas. Defendi Milena, uma mulher negra com uma trajetória marcada pelo racismo estrutural, pela pobreza, pelo que o Brasil reserva pra quem nasce onde ela nasceu, onde eu nasci. Não só defendi como torci por ela, mas isso mudou quando as atitudes dela mudaram dentro do programa.  Eu entendia de verdade a importância e da necessidade dela ganhar o grande prêmio final, da representatividade dela ali dentro. Mas dentro da casa, nas dinâmicas do jogo, eu mudei de ideia após alguns comportamentos da Milena que distoavam totalmente dos meus princípios de lealdade, e passei a torcer pela Ana Paula, loira, branca, de família rica, tudo que eu "não deveria" querer ver vencendo. 

Me julgaram por isso. 

Apoiar Ana Paula não significava apagar o racismo que a Milena sofre. Significava que eu assisti ao programa, vi os comportamentos, e fiz a leitura que fiz. Que eu, como qualquer pessoa que pensa, posso concordar que o sistema é racista e ainda assim discordar das atitudes de uma pessoa específica. Que a história de vida de alguém, por mais pesada que seja, não funciona como blindagem automática pra tudo que ela faz.

E é aí que a coisa fica complicada, porque eu sei o tamanho do que estou dizendo.

Cresci no nordeste, na periferia, num contexto em que a solidariedade coletiva era uma das poucas ferramentas que temos. A gente se fecha, se protege, porque o mundo de fora já está contra a gente. Eu carrego isso no corpo. Entendo visceralmente por que a ideia de "não abandonar os seus" é tão forte, tão emocional, tão ligada à sobrevivência.

Mas solidariedade não é lealdade cega. E confundir as duas coisas tem um custo que a gente raramente discute.

Quando exigem que eu defenda alguém só pela raça compartilhada, estão, no fundo, me pedindo pra suspender meu juízo crítico. Estão me pedindo pra tratar mulheres negras como um bloco homogêneo, sem individualidade, sem responsabilidade sobre suas próprias escolhas. E paradoxalmente, isso é uma forma de desumanização, a mesma que a gente diz combater.

Nenhuma análise racial séria ignora que o sistema pune mulheres negras com mais dureza. Sei que o olhar do público sobre Milena carregava julgamentos que não teriam o mesmo peso sobre uma mulher branca. Sei que a lupa que recai sobre nós é diferente. Esse ponto é real, é documentável, é inegociável.

Mas uma coisa não cancela a outra. Reconhecer o racismo do olhar externo não me obriga a achar que todos os comportamentos foram adequados. E torcer pra quem eu quiser num programa de televisão não é traição racial.

O que me incomoda de verdade nessa dinâmica é o que ela revela: que muita gente quer de mim uma postura de porta-voz coletiva, não de sujeita pensante. Que eu fale pela comunidade, que eu proteja a narrativa, que eu não dê munição pro lado errado. Como se minha função fosse administrar a imagem do movimento e não ter opiniões minhas.

Sendo psicóloga, vejo muito isso no consultório também, a maneira como o pertencimento a um grupo pode se tornar uma prisão afetiva. A pessoa deixa de confiar no próprio julgamento porque tem medo de ser expulsa do coletivo. Isso não é consciência política. É medo disfarçado de lealdade.

Eu não vou fingir que isso é simples. Não é. É uma tensão real, que mora em mim também. Cada vez que discordo de algo dentro de espaços negros, tem uma voz interna que pergunta se estou errando, se estou sendo usada, se estou facilitando a vida de quem nos odeia. Essa voz existe por uma razão histórica. Não vou descartá-la.

Mas também não vou deixar que ela engula minha capacidade de pensar por mim mesma.

Solidariedade racial é necessária, urgente, insubstituível. Ela existe porque o mundo precisa que exista. Mas solidariedade não significa ausência de discernimento. Significa que quando uma de nós cai, a gente pergunta o porquê antes de virar as costas. Significa que a história de vida importa na leitura, mas não apaga a responsabilidade individual. Significa que posso querer um mundo justo pra todas as mulheres negras e ainda assim não concordar com o que uma delas específica fez numa situação específica.

Ninguém me deu o cargo de guardiã da coerência racial alheia. E, honestamente, não quero esse cargo.

O que eu quero é poder pensar. Com tudo que sou, com tudo que vivi, com tudo que aprendi. E que isso não me torne suspeita.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

É tempo de chorar



Na sexta-feira eu acordei cansada.

Não é novidade, acordo cansada com uma frequência que já virou rotina, quase companhia. A TPM faz o que sabe fazer, a TAG cobra seus juros, e eu sigo tentando habitar todos os papéis que a vida me entregou sem pedir licença: mãe, esposa, filha, psicóloga. Às vezes me pergunto se, no meio de tantas personas, sobra algum espaço pra mim mesma, não a mim em função de alguém, mas a mim inteira, sem destinatário.

Naquela manhã, decidi fazer algo que vinha adiando há dias: tomar café enquanto lia e deixava os olhos vagarem pelo céu azul da janela da cozinha. Um gesto simples, quase infantil na sua modéstia. Mas era meu. O silêncio do lado de fora contrastava com o barulho permanente que mora aqui dentro — esse que não para nem quando durmo, quando o inconsciente sai em disparada como um cavalo sem sela, sem rumo, sem freio.

Eu lia É tempo de morangos, da Bruna Martinelli. Uma escrita sensível, de uma beleza quieta que me levou de volta à primeira vez que li Clarice Lispector. Foi a Josane, a Jó, minha vizinha, quem me emprestou. E aquele empréstimo, tão casual pra ela talvez, mudou a forma como eu olhava o mundo e como eu passava por ele. O amor pelos livros já existia antes, mas a Clarice abriu uma porta que eu não sabia que estava fechada.

Não sei se Jó sabe o tamanho do que fez por mim. Esse pensamento me aqueceu por dentro, e foi dele que nasceu um impulso: queria agradecer. Pedi à minha irmã o contato da Jó. Queria mandar uma mensagem, dizer obrigada, uma palavra pequena pra uma dívida grande.

Foi aí que a existência me lembrou, com sua brutalidade costumeira, que ela não pede licença.

A Jó ainda vive. Mas minha tia Mari está com os dias contados.

Depois de mais de uma década enfrentando o câncer, ele venceu. Os médicos dizem que ela vai antes do fim do mês. Um balde de água fria na manhã de céu azul e nuvens macias. E eu, que por alguns minutos havia cochilado no colo da gratidão, que havia descansado na ideia generosa de que a vida presta, fui lembrada de que era tempo de chorar.

E chorei. Chorei como criança perdida na vastidão do universo, chorei de soluçar, chorei aquele choro sem forma nem destino. Chorei por ser uma fagulha insignificante que habita por um tempo curto um pedaço minúsculo de terra, numa bola que flutua numa escuridão enorme e indiferente. Chorei pela injustiça de tudo isso — de Hitler ter morrido sem sofrer o suficiente, e da minha tia, pobre mulher baiana, mãe, avó, tão sofrida, ter o corpo inteiro devorado aos poucos pelos dentes de uma doença que não tem misericórdia. O corpo que um dia foi dela. Que agora pertence ao câncer.

Não é justo. Mas o que é justo, afinal?

Crianças sofrem coisas que nenhuma palavra deveria precisar descrever. Homens bons morrem enquanto quem faz o mal tem tempo de sobra pra continuar fazendo. Nada se encaixa numa lógica que aguente o peso do que vemos. E é exatamente aí, nesse ponto de ruptura, que eu entendo que tentar encontrar sentido só aprofunda a angústia. O jogo da vida não tem regras que me satisfaçam. Talvez não tenha regras nenhuma.

Já que sou, o jeito é ser. Já dizia Clarice, e eu repito.

Minha tia se vai. E eu não posso fazer nada sobre isso, a impotência é uma das texturas mais difíceis da vida. Mas posso perguntar: o que faço com o tempo que me resta, seja ele qual for? E se eu usar esse tempo pra construir uma vida real, sem filtro, sem performance, sem o arrependimento de ter vivido pela metade?

Ainda estou aqui. Apesar de tudo, ainda estou. O relógio da cozinha anuncia no seu tic-tac constante que o tempo passa e ao mesmo tempo me lembra, como um metrônomo gentil, que meu coração ainda pulsa junto com ele.

Naquele mesmo dia fui pra rua porque quis. Caminhei no meio das pessoas, olhei pro céu com mais presença do que de costume, me deixei invadir pelas vozes, pelo barulho, pelo cheiro do mundo em movimento. Pensei sobre tudo, sobre nada, sobre muitos alguma coisa, e percebi que quando minha tia for, uma parte dela ficará comigo. Ela também amava livros. Era jovem que suspirava sobre romances de banca, lendo à luz de vela no quarto da roça. Então ela estará em cada página que eu virar.

Preciso acreditar, com a fé sincera e sem vergonha de uma criança que acredita no Papai Noel, que a alma dela vai encontrar a do meu avô, a da minha avó, a do pequeno Dijalma, que tinha sete anos e foi cedo demais. Que existe algum lugar onde quem amamos continua existindo de um jeito que ainda não sabemos nomear. Não recebi notícias do mundo de lá, então o que me resta é inventar, imaginar, ter fé que há vida depois dessa vida.

A ideia de desaparecer para sempre é tão injusta quanto a de ter existido.

Mas por ora, eu existo. E isso, hoje, precisa ser suficiente.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

A mentira do Autismo leve


Aos trinta e quatro anos eu recebi o diagnóstico tardio de autismo. Como psicóloga, eu tinha as ferramentas para decifrar o sofrimento do outro, mas vivia a minha própria estranheza como um fracasso moral durante todo esse tempo. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo, deram outros nomes, outros diagnósticos, ansiedade, ciclotimia.. depressão.. mas autismo? autismo não era coisa de criança? eu não era um garoto branco, eu era uma mulher, uma mãe, uma profissional da área da saúde. Como assim eu sou autista?

O Dia da Conscientização do Autismo, com seus tons pastéis e quebra-cabeças infantis, é uma afronta à mulher que eu tive que assassinar para sobreviver até aqui. Para nós, o diagnóstico tardio não é uma descoberta mansa; é uma exumação de um cadáver que ainda respira. Recentemente, o debate público foi invadido por vozes que tentam higienizar o espectro, sugerindo que o "autismo leve" é uma moda ou uma diluição do transtorno. Isso dói porque é mentira. O termo "leve" é uma métrica de conveniência para o outro. Eu sou "leve" para você porque meu sofrimento não te incomoda, porque eu aprendi a sangrar por dentro sem manchar o seu tapete.

Dizer que o meu autismo é banal é uma violência intelectual e existencial. O custo da minha funcionalidade é a minha saúde mental. É a exaustão que me desintegra quando a porta de casa fecha e eu finalmente posso parar de performar o "humano padrão". Se o meu autismo te parece leve, é porque o meu esforço para escondê-lo foi absoluto. E essa máscara é um instrumento de tortura que usei contra mim mesma por décadas.

Nós, mulheres diagnosticadas tardiamente, somos mestres da mimese. Aprendemos a ler o ambiente como se fôssemos espiãs em território inimigo. Cada olhar sustentado, cadaSmall Talk suportada, cada textura engolida no seco foi uma pequena mutilação do meu ser. A sociedade não quer que sejamos autistas; ela quer que sejamos "normais o suficiente" para não atrapalhar o fluxo do capital e da convivência.

O capacitismo diário é esse "elogio" venenoso: "Mas você é tão inteligente, nem parece autista". O que eles estão dizendo, na verdade, é que a minha deficiência só é válida se eu for incapaz. Se eu sou produtiva, se eu sou psicóloga, se eu sou mãe, então meu diagnóstico é "frescura". Eles negam a minha dor porque ela é invisível, e negam a minha existência porque ela os obriga a rever o que entendem por humanidade.

O sentido da vida passa pela verdade. E a minha verdade é que eu habito um mundo ruidoso, tátil e caótico com uma pele fina demais. O diagnóstico aos 34 anos foi o momento em que parei de pedir desculpas por existir. É a transição dolorosa da culpa para a dignidade.

Dói admitir que fui cúmplice do meu próprio silenciamento, mas o incômodo que esse texto causa é necessário. Se a minha verdade te agride, é porque a sua "normalidade" é construída sobre o apagamento de todos nós que não encaixamos.

Para reflexão, indico o filme francês "Uma Mulher Diferente" (Netflix). Não é sobre uma "doencinha" ou um "jeito especial". É sobre o peso de ser uma consciência deslocada no tempo e no espaço. É sobre o diagnóstico como o único ar possível para quem passou a vida inteira prendendo a respiração. Eu sou esquisita sim, mas  sabe quem também é? os que se dizem normal. 

terça-feira, 31 de março de 2026

Cartografia de Março

Março sempre chega com uma densidade diferente. É o mês em que celebro mais um ciclo de vida, meu aniversário, e por isso a travessia destes trinta e um dias exigiu de mim um olhar mais atento aos contornos da alma. Entre as sessões de clínica e os silêncios da casa, dediquei-me a mapear afetos por meio de leituras, cenas e sons que me ajudaram a entender o momento presente.

Nesta edição da Cartografia do mês, compartilho com vocês os rastros desse percurso.

📚 Na Estante: 

Neste mês de celebração e reflexão, quatro obras foram bússolas fundamentais:



  1. Medo de dar Certo (Natália Sousa): Uma leitura necessária para quem, como nós, muitas vezes se vê paralisada diante da própria potência. Natália explora as raízes da autossabotagem com uma delicadeza que dialoga com a nossa busca por sentido; é um convite para assumir a responsabilidade pela própria expansão. Esse leitura foi uma indicação de uma paciente muito querida. Obrigada mais uma vez, G.H! 

  2. A Cachorra (Pilar Quintana): Um livro visceral. A escrita de Quintana é seca e profunda, como um corte necessário. Ele nos confronta com o desejo, a maternidade e as frustrações mais latentes da natureza humana. Eu pretendo fazer um post todinho somente sobre esse livro. 

  3. Kitchen (Banana Yoshimoto): Um clássico contemporâneo sobre o luto e a cura. Yoshimoto nos ensina que o refúgio pode estar nos lugares mais comuns e que a cozinha (ou qualquer espaço de cuidado) pode ser o cenário de uma reconstrução existencial. Foi a leitura desse bimestre de um Clube do livro que faço parte.

    Dica extra: É Tempo de Morangos (Bruna Martiolli): Ainda não terminei a leitura desse livro, mas já quero recomendá-lo, principalmente para os amantes da literatura, os apaixonados pela Clarice Lispector e pelos poemas do Fernando Pessoa. É uma delicadeza que só! Indico muito.

    🎬 Na Tela:

    Para assistir com o olhar crítico, selecionei produções que conversam entre si:

    • Documentário "Consciência" (Prime Video): Uma exploração sobre o que nos torna humanos e como percebemos a realidade. Essencial para quem deseja pensar a subjetividade para além do óbvio.

    • Documentário "Sociedade do Cansaço": Baseado na obra de Byung-Chul Han, este documentário é um espelho desconfortável da nossa era. Ele nos questiona: estamos vivendo ou apenas performando produtividade até o esgotamento? Para quem não tem assinatura da Globoplay, recomendo esse doc gratuito e disponível no YoutTube.

    • Filme "Livros Restantes" (Prime Video): Este filme nacional, estrelado pela impecável Denise Fraga, é uma joia sobre o encontro, a velhice e o que permanece em nós através das histórias. Uma obra que exalta a palavra e a memória, trazendo aquela sensibilidade que toca o comum com mãos de poesia.

      🎧 Pausa Necessária

      Um respiro para a alma. Eu amo coisas fofinhas, me conecta e abraça a minha criança interior. É um acalento: Assista aqu



      🐚 O Culto à desconexão

      Por fim, minha indicação de comunidade para este mês é o Clube do Offline, da Talissa Monteiro. Em um mundo que exige presença digital ininterrupta, as reflexões da Talissa no Substack são um lembrete de que a vida real acontece no intervalo das notificações. 👉 Conheça o Clube do Offline aqui.


      Março se despede deixando as sementes de um novo ano pessoal. Que as leituras e visões deste mês possam, de alguma forma, ajudar você a cartografar seu próprio território interno.

      Com afeto,

      Caroline Queiroz Souza

quarta-feira, 25 de março de 2026

A armadilha da aceitação: Quando aceitar é apenas uma nova forma de fugir


Vivemos tempos de uma urgência anestésica. Queremos o alívio como quem aperta um interruptor para apagar a luz de um cômodo desconfortável. E, curiosamente, essa pressa chegou até os nossos consultórios e processos de autoconhecimento sob um disfarce sedutor: a palavra Aceitação.

Muitas vezes, o que chamamos de aceitação é, na verdade, um golpe do ego.

O sujeito diz a si mesmo: "Vou aceitar que estou triste, vou dar um lugar para essa angústia", mas, no fundo de sua intenção, existe um contrato secreto com a vida. Ele aceita na esperança de que, ao ser "bonzinho" com a dor, ela se sinta lisonjeada e vá embora. Ele usa a aceitação como uma moeda de troca para o alívio.

Isso não é aceitação; é esquiva experiencial disfarçada de virtude. É tentar enganar o próprio fenômeno. Quando aceitamos para "parar de sentir", ainda estamos tratando o nosso mundo interno como um erro a ser corrigido, um inimigo a ser sedado. É o desejo de ser um observador imune à própria existência, como se pudéssemos assistir à nossa vida sem sermos afetados pelas intempéries que ela nos lança.

A verdadeira aceitação não tem nada a ver com gostar do que se sente ou com a passividade da resignação. Ela é, antes de tudo, um ato de hospitalidade radical. É receber o hóspede indesejado, a ansiedade, o luto, o vazio, não porque queremos que ele se mude logo, mas porque ele já está na sala. Ele é um dado da nossa realidade presente.

A aceitação autêntica é o que nos permite caminhar. Enquanto eu luto para não sentir o que já estou sentindo, toda a minha energia vital é consumida nesse front de batalha interno. Eu fico estagnado, paralisado na tentativa de "resolver" o meu sentir para só então começar a viver.

O deslocamento ético acontece quando paramos de perguntar "Como faço para isso parar?" e começamos a questionar: "Isso está aqui agora, e o que eu vou fazer com a minha vida apesar disso?"

Aceitar é desistir da guerra. É reconhecer a nossa faticidade, aquilo que nos é dado e que não controlamos. É o suspiro profundo de quem para de empurrar a parede e decide dar um passo ao lado para continuar o trajeto.

A cura não é o fim do desconforto. A cura é o fim da resistência que nos impede de ser quem somos, com toda a inteireza e as fissuras que a condição humana exige.

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