quarta-feira, 15 de abril de 2026

É tempo de chorar



Na sexta-feira eu acordei cansada.

Não é novidade, acordo cansada com uma frequência que já virou rotina, quase companhia. A TPM faz o que sabe fazer, a TAG cobra seus juros, e eu sigo tentando habitar todos os papéis que a vida me entregou sem pedir licença: mãe, esposa, filha, psicóloga. Às vezes me pergunto se, no meio de tantas personas, sobra algum espaço pra mim mesma, não a mim em função de alguém, mas a mim inteira, sem destinatário.

Naquela manhã, decidi fazer algo que vinha adiando há dias: tomar café enquanto lia e deixava os olhos vagarem pelo céu azul da janela da cozinha. Um gesto simples, quase infantil na sua modéstia. Mas era meu. O silêncio do lado de fora contrastava com o barulho permanente que mora aqui dentro — esse que não para nem quando durmo, quando o inconsciente sai em disparada como um cavalo sem sela, sem rumo, sem freio.

Eu lia É tempo de morangos, da Bruna Martinelli. Uma escrita sensível, de uma beleza quieta que me levou de volta à primeira vez que li Clarice Lispector. Foi a Josane, a Jó, minha vizinha, quem me emprestou. E aquele empréstimo, tão casual pra ela talvez, mudou a forma como eu olhava o mundo e como eu passava por ele. O amor pelos livros já existia antes, mas a Clarice abriu uma porta que eu não sabia que estava fechada.

Não sei se Jó sabe o tamanho do que fez por mim. Esse pensamento me aqueceu por dentro, e foi dele que nasceu um impulso: queria agradecer. Pedi à minha irmã o contato da Jó. Queria mandar uma mensagem, dizer obrigada, uma palavra pequena pra uma dívida grande.

Foi aí que a existência me lembrou, com sua brutalidade costumeira, que ela não pede licença.

A Jó ainda vive. Mas minha tia Mari está com os dias contados.

Depois de mais de uma década enfrentando o câncer, ele venceu. Os médicos dizem que ela vai antes do fim do mês. Um balde de água fria na manhã de céu azul e nuvens macias. E eu, que por alguns minutos havia cochilado no colo da gratidão, que havia descansado na ideia generosa de que a vida presta, fui lembrada de que era tempo de chorar.

E chorei. Chorei como criança perdida na vastidão do universo, chorei de soluçar, chorei aquele choro sem forma nem destino. Chorei por ser uma fagulha insignificante que habita por um tempo curto um pedaço minúsculo de terra, numa bola que flutua numa escuridão enorme e indiferente. Chorei pela injustiça de tudo isso — de Hitler ter morrido sem sofrer o suficiente, e da minha tia, pobre mulher baiana, mãe, avó, tão sofrida, ter o corpo inteiro devorado aos poucos pelos dentes de uma doença que não tem misericórdia. O corpo que um dia foi dela. Que agora pertence ao câncer.

Não é justo. Mas o que é justo, afinal?

Crianças sofrem coisas que nenhuma palavra deveria precisar descrever. Homens bons morrem enquanto quem faz o mal tem tempo de sobra pra continuar fazendo. Nada se encaixa numa lógica que aguente o peso do que vemos. E é exatamente aí, nesse ponto de ruptura, que eu entendo que tentar encontrar sentido só aprofunda a angústia. O jogo da vida não tem regras que me satisfaçam. Talvez não tenha regras nenhuma.

Já que sou, o jeito é ser. Já dizia Clarice, e eu repito.

Minha tia se vai. E eu não posso fazer nada sobre isso, a impotência é uma das texturas mais difíceis da vida. Mas posso perguntar: o que faço com o tempo que me resta, seja ele qual for? E se eu usar esse tempo pra construir uma vida real, sem filtro, sem performance, sem o arrependimento de ter vivido pela metade?

Ainda estou aqui. Apesar de tudo, ainda estou. O relógio da cozinha anuncia no seu tic-tac constante que o tempo passa e ao mesmo tempo me lembra, como um metrônomo gentil, que meu coração ainda pulsa junto com ele.

Naquele mesmo dia fui pra rua porque quis. Caminhei no meio das pessoas, olhei pro céu com mais presença do que de costume, me deixei invadir pelas vozes, pelo barulho, pelo cheiro do mundo em movimento. Pensei sobre tudo, sobre nada, sobre muitos alguma coisa, e percebi que quando minha tia for, uma parte dela ficará comigo. Ela também amava livros. Era jovem que suspirava sobre romances de banca, lendo à luz de vela no quarto da roça. Então ela estará em cada página que eu virar.

Preciso acreditar, com a fé sincera e sem vergonha de uma criança que acredita no Papai Noel, que a alma dela vai encontrar a do meu avô, a da minha avó, a do pequeno Dijalma, que tinha sete anos e foi cedo demais. Que existe algum lugar onde quem amamos continua existindo de um jeito que ainda não sabemos nomear. Não recebi notícias do mundo de lá, então o que me resta é inventar, imaginar, ter fé que há vida depois dessa vida.

A ideia de desaparecer para sempre é tão injusta quanto a de ter existido.

Mas por ora, eu existo. E isso, hoje, precisa ser suficiente.

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