O segundo mês do ano trouxe uma trégua na saúde, embora eu tenha conseguido a proeza de cortar a palma da mão direita na lida doméstica, esse "osso do ofício" de quem equilibra os papéis de psicóloga, mãe e dona de casa. Enquanto o mundo lá fora se perdia na cadência do Carnaval, meu refúgio foi o camarote do quarto. Entre o "bloco do sofá" e o silêncio das páginas, aproveitei a farra alheia para mapear novos sentidos.
Sobre livros e leituras
Uma das travessias literárias mais impactantes deste ano, até agora, foi "As Primas", de Aurora Venturini. Já compartilhei por aqui minhas impressões, mas a força daquela escrita argentina continua ressoando como um lembrete da estranheza que habita os laços de sangue.Ainda em fevereiro, li via BibliON o livro "Uma Duas", de Eliane Brum. Sinceramente, não sei se devorei a obra ou se fui devorada por ela. É uma história indigesta, pesada, povoada por personagens problemáticas que compartilham narrativas igualmente densas. Brum escreve de maneira crua; ela não faz a menor questão de nos poupar. É como se quisesse esfregar a sujeira do real em nossa face, jogando o que há de mais abjeto no ventilador do consciente. É um livro feito de camadas de traumas, um convite ao desconforto que não recomendo levianamente — não por ser ruim, mas porque exige uma alma preparada para a estranheza. No fim, as palavras faltam, mas o sentir transborda.
Essa busca por entender a arquitetura do humano me levou a novas aquisições para a estante. Comprei de António Damásio as obras "O Erro de Descartes" e "Sentir e Saber". Como psicóloga, revisitar Damásio é essencial para reafirmar que não somos seres puramente racionais, mas corpos que sentem e, a partir desse sentir, constroem a consciência.
Em contraste com a biologia da mente, busquei o bálsamo de Hermann Hesse, adquirindo "Felicidade" e "Sidarta". Hesse sempre me conduz a um olhar fenomenológico sobre a busca pelo eu.
Momento pipoca
Finalmente assisti a "Hamnet". A narrativa é de uma sensibilidade cortante. Só não chorei porque a fluoxetina estabeleceu um limite químico para o meu luto vicário. Há algo de profundamente existencial em ver a dor ser transformada em arte, mesmo quando estamos, momentaneamente, impedidos de transbordar pela via das lágrimas.
