quinta-feira, 19 de setembro de 2019

A vizinha


Era só uma estranha, mas bateu na minha porta implorando por minha ajuda, sua alma desesperada precisava com urgência de ouvidos e ombros amigos para desabafar. Cedi os meus por pura empatia, pois já tive a infelicidade de ter sido traída, conheço a dor de ser enganada, e a sensação de ter o coração esmagado pelas mãos de quem já nos acariciou um dia. Doí, doí pra caramba.

Dei conselhos baseados nas minhas feridas já cicatrizadas, mostrei minhas marcas de sobrevivente, e contei meu testemunho de ressurreição. É possível renascer das cinzas, é possível amar e ser amada com o mesmo peso e na mesma intensidade, é possível ser feliz, existe vida após a morte, e o próprio Jesus superou seu Judas. Nada é impossível e o tempo é um santo remédio. 

"- Vai passar menina." Te falei, e será que um dia poderei te dizer "Eu te disse"?

Quem sabe.

Até essa manhã dividíamos a mesma parede, a mesma varanda, e em algumas noites, fatias de pizza. Te ofereci minha mão, e tu quis meu braço. Entrou na minha casa, invadiu minha cozinha, usou  meu banheiro, sentou no meu sofá, abusou da minha boa vontade me fazendo ouvir histórias da sua infância, seus medos e anseios, seus sonhos, e nem se quer perguntou se eu estava interessada em saber da história dos seus parentes, da sua tragédia familiar. Foi inconveniente, tentou enfiar teu Jeová na minha goela abaixo, enquanto eu cansada, respirava fundo, lutando internamente pra não ser rude e te expulsar, como no fundo eu queria fazer. Éramos só vizinhas, mas tu se comportava como se fossemos irmãs. Tão ingenua. O tempo também vai te ensinar que nem todo mundo é amigo. 

Mas agora você foi embora, e seu abraço de despedida encheu meu coração de lágrimas, pois não foi somente sua ex casa de aluguel que ficou vazia, minhas noites também, meu sofá também, e agora me dei conta de que nunca mais escutarei seu choro atravessando as paredes da casa, que nunca mais te ouvirei cantar as músicas da Marisa Monte enquanto lava roupa na pia, para depois estende-la preguiçosamente na corda que dividíamos. Seu livro ficou na minha estante, e você na minha memória. Seríamos ótimas amigas se o tempo e as circunstancias tivessem permitido, mas nem telefone trocamos, pois deixei claro o quanto odiava manter contato com as pessoas, principalmente se ela estivesse do outro lado da linha. Vou comer papel como tu recomendou, e vai ser uma pena não poder te dizer se achei o gosto bom ou ruim.

Que Deus abençoe sua caminhada menina de peixes, e que o câncer não faça parte nem do seu mapa astral. Boa sorte.

"Quero que você seja feliz. Hei de ser feliz também... "
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