
Entrei naquele bar com ar de bordel e cheiro de hospital, me deparei com um mar de loucos de todos os tipos e níveis de loucura que existe. Todos falando sem parar, flertando com a morte, e fazendo piruetas com a corda no pescoço. Era um verdadeiro show pra vê quem chamava mais atenção, pra vê quem gritava mais alto. Uma competição de dores e lamentações.
Mulheres carentes flertando com seus seios amostra, implorando por elogios, e homenagens de todos os que tivessem olhos para consumir seus nudes. Homens complexados, com egos machucados, corações partidos e chifres na cabeças, que exibiam seus falsos sorrisos em troca de peitos na fila do banheiro. O cheiro de cigarro era forte. Bebiam Vodca como quem bebe água. A ressaca era braba.
Aquele lugar é o reino das tretas. Confusões acontecem a qualquer momento. É socos e pontapés pra todos os lados. A dona, uma mulher linda e loira, é o humor em pessoa, sempre consegue colocar ordem na bagunça mas não antes de atirar algumas lenhas na fogueira. É circo em forma de caos.
Machistas e religiosos nunca são bem vindos. Babacas de qualquer outra espécie também não. É uma bagunça organizada, com direito a regras e tudo. Essas regras sempre são quebradas por alguns desavisados, que são expulsos a chutes e proibidos de voltarem novamente. É o famoso BAN que todo mundo tem medo. Ninguém quer ser banido por aquelas bandas.
Alguns usam máscaras para não serem reconhecidos. Se sentem melhor fantasiados, temem ser reconhecidos e julgados pelos parentes e conhecidos que por ventura passarem por lá. E o o motivo principal deles se esconderem, é que não querem expor suas cicatrizes. São homens e mulheres de todos os lugares, de todas as idades, que foram unidos por suas marcas, entrelaçados por suas lágrimas, é uma aliança tarja preta. Escorregar em vômitos é comum. Vomitar sobre os vômitos também. Não é um ambiente limpo, muito menos saudável. Às vezes acontece de você se deparar com alguém defecando em algum lugar indevido, como em cima da mesa por exemplo.
Todos os fregueses estão doentes, até mesmo alguns doutores que aparecem lá de vez em quando, caçando clientes para seu consultório. O nome desse bar é bem óbvio: "Depressão", mas todos os CID tem passe livre. Bipolares, Border, esquizofrênicos, ansiosos..todos unidos pela camisa de força e reunidos em busca da paz, do alívio, dos sorrisos.. da esperança de dias melhores, esperando a chuva passar..
Eu entro, eu saio. Eu entro novamente, porque esses doidos preenchem os meus dias. Nossa solidão se encaixam, se entendem. Estamos todos no mesmo barco, torcendo pra que ele afunde depressa, quando na verdade só queremos nadar, nadar, nadar e não morrer na praia. Queremos a tal da boia da felicidade.
Que o vento cesse. Nosso objetivo é sobreviver.