Não escrevo isso para resolver o maior enigma da literatura brasileira, mas para analisar quem nos conta essa história. A traição, a meu ver, não ocorre na cama ou no sofá, mas na mente febril e narcísica de Bento Santiago.
A Tirania do Olhar
Machado constrói toda a narrativa sobre o alicerce do olhar. Desde o início, somos avisados sobre os famosos "olhos de cigana oblíqua e dissimulada", os "olhos de ressaca" que puxam para dentro como uma onda forte.
Sob uma ótica psicanalítica, o olhar em Dom Casmurro não é passivo; ele é constitutivo. Bentinho não vê Capitu; ele vê a si mesmo refletido nela, ou melhor, vê o que ele teme ser. O olhar de Capitu assusta Bentinho não porque esconde um segredo, mas porque devolve a ele um vazio que ele não suporta.
Lacan dizia que o olhar do Outro nos define. Para Bentinho, o olhar de Capitu era um espelho insuportável de sua própria insegurança. Ele precisava transformá-la em monstro, em adúltera, para que ele pudesse ocupar o papel de vítima, de mártir, evitando assim confrontar sua própria incapacidade de amar sem possuir.
A Patologia do Ciúme: O Caso Clínico de Bentinho
Se tratássemos o livro como a escuta de um analisando, perceberíamos rapidamente que Bentinho é o arquétipo da paranoia projetiva.
O ciúme de Bentinho não nasce de fatos; nasce de uma estrutura psíquica delirante. Observem como ele, advogado de formação, escreve suas memórias não como um diário, mas como um autodesagravo jurídico. Ele está montando um processo. Ele seleciona as evidências, ele manipula o tempo, ele interpreta os silêncios.
A Projeção: Bentinho projeta em Escobar e Capitu o desejo que, talvez, fosse dele mesmo – o desejo de ser outro, de ser mais livre, de ser como Escobar. Ao "matar" os dois em sua mente e condenar Capitu ao exílio (e Ezequiel à rejeição), ele tenta aniquilar suas próprias sombras.
O Narcisismo Ferido: Bentinho não suporta a ideia de que Capitu tenha uma subjetividade fora dele. Quando ela olha para o cadáver de Escobar e "segura as lágrimas", Bentinho lê paixão. Mas, sob uma análise fria, poderia ser apenas empatia, dor humana. Para o narcisista, tudo o que o Outro faz é sobre ele ou contra ele. Não existe espaço para a autonomia de Capitu.
O Veredito do Inconsciente
Por que defendo que não houve traição? Porque a narrativa de Bentinho é perfeita demais em sua dor. Ele encontra semelhanças entre Ezequiel e Escobar baseadas puramente na mímica e no gesto – traços que são facilmente aprendidos por convivência, não apenas herdados geneticamente. Ele vê o que precisa ver para justificar seu isolamento final, para se tornar o "Dom Casmurro".
A traição de Capitu é a fantasia necessária para que Bentinho suporte a realidade. Sem a "traição", ele seria apenas um homem amargo que destruiu sua família por insegurança. Com a traição, ele se torna uma tragédia grega.
Ao final, Capitu é absolvida pelo silêncio. Ela não tem voz no livro; só temos a versão dele. E na psicanálise, aprendemos a desconfiar daquele que fala demais para justificar a própria inocência. Bentinho traiu a si mesmo, traiu a promessa daquele amor adolescente, afogado não pela ressaca dos olhos de Capitu, mas pela tempestade dentro de sua própria cabeça.
