Novembro tem essa estranha mania de ser um mês de travessia. Já não somos quem éramos em janeiro, e ainda não temos a permissão festiva de dezembro. É um mês que nos pede contas. E, neste ano especificamente, senti que novembro me pediu para olhar para o que está soterrado. Passei as últimas semanas imerso em narrativas sobre o que a sociedade esconde sob o tapete e o que nós, individualmente, escondemos sob a pele.
A minha curadoria deste mês não é leve, admito. Mas é necessária, como abrir uma janela em um quarto fechado há muito tempo.
O avesso do silêncio: Três vozes que quebraram o concreto
Novembro é o mês da Consciência Negra, e dediquei meus ouvidos e olhos a entender quem veio antes de nós para alargar o mundo. Assistindo a três conteúdos documentais (que deixo os links abaixo), fui confrontada com a história da psiquiatria e da justiça no Brasil.
Primeiro, conheci a fundo a figura de Luiz Gama. Não apenas o advogado, mas o homem que, vendido pelo próprio pai, libertou-se para libertar os outros. Há algo de profundamente existencial em ser "o primeiro escravo que ele libertou". Depois, mergulhei na vida de Juliano Moreira, o psiquiatra negro que, num ato de revolução silenciosa, retirou as grades das janelas dos hospícios. Ele entendeu, antes de muitos, que o tratamento da loucura não podia ser a tortura.
Mas foi o episódio do podcast da Quatro Cinco Um sobre Stella do Patrocínio que me desarmou. Ouvir o "falatório" de Stella — internada por décadas, negra, pobre, poeta involuntária — é entender que a lucidez às vezes reside no grito de quem foi declarado louco. Stella dizia que era "gases, ar, espaço vazio". Ouvir sua voz é um ato de reparação histórica.
Assista:
A história de Luiz Gama Ouça/Veja:
O falatório de Stella do Patrocínio Conheça:
A revolução de Juliano Moreira
O Cinema: A escola como um microcosmo da moral
Ainda sob o impacto das instituições (o tribunal de Gama, o hospício de Moreira e Stella), assisti ao filme "A Sala dos Professores". Que soco no estômago. Não é um filme sobre educação apenas; é um tratado sobre como a busca pela "verdade" pode destruir uma comunidade. A escola ali funciona como uma panela de pressão onde o idealismo se choca com a paranoia. Fiquei dias pensando naquelas imagens: o quanto de nossas "boas intenções" são apenas uma forma de exercer controle? É um suspense ético que nos deixa sem chão, questionando se a justiça é mesmo possível quando ninguém confia em ninguém.
Leitura:
Para fechar o mês, precisei de silêncio e papel. Li "Análise", o novo livro de Vera Iaconelli. Se nos vídeos olhei para a história do Brasil, e no filme olhei para a sociedade, com Vera olhei para o espelho. É desconcertante ver uma psicanalista sair da cadeira de quem escuta para se deitar no divã da página em branco.
Vera faz o que ela chama de "escavação". Ela narra sua formação não pelos diplomas, mas pelos lutos, pelos silêncios da família, pelas tragédias que nos fundam. Ler esse livro em novembro fez todo o sentido: é uma obra sobre aceitar que somos feitos de falhas, de restos, e que a única cura possível é a palavra.
Para levar para dezembro
Saio de novembro com a sensação de que a liberdade, seja a de Luiz Gama, a de Stella, ou a nossa própria no divã ,custa caro, mas é a única coisa que vale a pena comprar.
Que venha o fim do ano. Um abraço, Carol.


