Eu vi um vídeo esses dias que não sai da minha cabeça. Nele, uma mulher apontava algo sutil, mas que carrega um peso monumental: nos desenhos da Disney, só as vilãs gargalham e riem com gosto. Elas ostentam o prazer da sua própria existência, o ruído alto e desregrado que denuncia a insubmissão. As princesas, por outro lado, mal sorriem; um riso modesto, contido, sem dentes, quase um pedido de desculpas por sentirem algo bom.
Isso não é só um detalhe da animação, é a cartilha de como nos é permitido sentir. O riso alto é perigoso porque ele é uma manifestação de poder e autonomia. Ele prova que a alegria existe em mim, sem pedir licença. E se a alegria é insubmissa, o que dirá a raiva, a tristeza, o caos?
Ousar sentir, eis a nossa maior transgressão.
A patologização do nosso ciclo
Estar neste período caótico do mês, o que chamo de “totalmente pirada e maluca”, ou TPM, é viver a erupção hormonal que prova a minha condição de não-linearidade. É cansativo, exaustivo, sentir esse vulcão em ebulição, sentir o útero se contorcer e sangrar, a dor que chega mesmo sem haver bebê, e mês após mês. Eu invejo a estabilidade que parece ser o privilégio masculino. Nós somos cíclicas em um mundo que exige retidão e controle.Quando essa dor e esse caos transbordam, o que a sociedade faz? Ela nos rotula. Somos imediatamente a “triste, louca ou má”. Meu corpo, minha mente, meus sentimentos – tudo é aceitável apenas se estiver sob o jugo, medicado, controlado.
Não é uma fragilidade individual; é um diagnóstico social. Por que as mulheres têm o dobro do diagnóstico de ansiedade e depressão comparadas aos homens? Os dados (45% das mulheres brasileiras com algum transtorno mental, segundo pesquisas pós-pandemia) não refletem apenas uma falha biológica feminina, mas o peso insuportável de viver como a árvore frutífera que é incessantemente podada, mas da qual se exige frutos diários.
Somos nós que puxamos a dupla jornada, que dobramos o corpo na CLT e triplicamos a alma no lar, sem a possibilidade de delegar o serviço invisível. O esgotamento não é luto, é síndrome. Minha dor se torna uma patologia: o Transtorno Disfórico Pré-Menstrual (TDPM), uma condição que incapacita e que transforma a sensibilidade em um campo de batalha interno. Minha ciclicidade é lida como instabilidade e, portanto, precisa ser medicalizada para que eu volte a ser a “boa” mulher: a que serve e a que se cala.
Obediência, serviço e o preço da fala
A opressão sobre a mulher é histórica, profunda, e encontra eco até mesmo na espiritualidade. A imagem feminina, especialmente no cristianismo paulino, é a da submissão e do silêncio. Lembro do Apóstolo Paulo falando que a mulher não poderia sequer falar, e a questão do uso do véu, aquele símbolo que representava a autoridade e o controle masculino.
A lição é clara: o corpo e a voz da mulher não lhe pertencem. Se não podemos rir com gosto, se não podemos falar em público, se nosso vestuário é culpabilizado por casos de estupro, se nosso caos hormonal é medicalizado para não incomodar, então o nosso lugar é o do serviço mudo.
Temos permissão para sentir? Não, somos ordenadas a controlar. Temos lugar de falar? Não, somos orientadas a obedecer.
A minha luta, a nossa luta, é para romper a cartilha das princesas e reivindicar o barulho das vilãs. Não a maldade, mas o direito àquela gargalhada que é tão livre, tão poderosa, que não cabe no recato.
Minha existência, neste corpo que pulsa, sangra e sente, é o meu maior ato de rebelião. Se a vida exige que eu seja a árvore podada, eu escolho ser a que, apesar das tesouras, insiste em florir para além dos limites impostos, em um grito existencial que exige o direito não apenas de servir, mas de existir em toda a minha intensidade.
