quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Triste, louca ou má


Eu vi um vídeo esses dias que não sai da minha cabeça. Nele, uma mulher apontava algo sutil, mas que carrega um peso monumental: nos desenhos da Disney, só as vilãs gargalham e riem com gosto. Elas ostentam o prazer da sua própria existência, o ruído alto e desregrado que denuncia a insubmissão. As princesas, por outro lado, mal sorriem; um riso modesto, contido, sem dentes, quase um pedido de desculpas por sentirem algo bom.

Isso não é só um detalhe da animação, é a cartilha de como nos é permitido sentir. O riso alto é perigoso porque ele é uma manifestação de poder e autonomia. Ele prova que a alegria existe em mim, sem pedir licença. E se a alegria é insubmissa, o que dirá a raiva, a tristeza, o caos?
Ousar sentir, eis a nossa maior transgressão.

A patologização do nosso ciclo

Estar neste período caótico do mês, o que chamo de “totalmente pirada e maluca”, ou TPM, é viver a erupção hormonal que prova a minha condição de não-linearidade. É cansativo, exaustivo, sentir esse vulcão em ebulição, sentir o útero se contorcer e sangrar, a dor que chega mesmo sem haver bebê, e mês após mês. Eu invejo a estabilidade que parece ser o privilégio masculino. Nós somos cíclicas em um mundo que exige retidão e controle.

Quando essa dor e esse caos transbordam, o que a sociedade faz? Ela nos rotula. Somos imediatamente a “triste, louca ou má”. Meu corpo, minha mente, meus sentimentos – tudo é aceitável apenas se estiver sob o jugo, medicado, controlado.

Não é uma fragilidade individual; é um diagnóstico social. Por que as mulheres têm o dobro do diagnóstico de ansiedade e depressão comparadas aos homens? Os dados (45% das mulheres brasileiras com algum transtorno mental, segundo pesquisas pós-pandemia) não refletem apenas uma falha biológica feminina, mas o peso insuportável de viver como a árvore frutífera que é incessantemente podada, mas da qual se exige frutos diários.

Somos nós que puxamos a dupla jornada, que dobramos o corpo na CLT e triplicamos a alma no lar, sem a possibilidade de delegar o serviço invisível. O esgotamento não é luto, é síndrome. Minha dor se torna uma patologia: o Transtorno Disfórico Pré-Menstrual (TDPM), uma condição que incapacita e que transforma a sensibilidade em um campo de batalha interno. Minha ciclicidade é lida como instabilidade e, portanto, precisa ser medicalizada para que eu volte a ser a “boa” mulher: a que serve e a que se cala.

Obediência, serviço e o preço da fala

A opressão sobre a mulher é histórica, profunda, e encontra eco até mesmo na espiritualidade. A imagem feminina, especialmente no cristianismo paulino, é a da submissão e do silêncio. Lembro do Apóstolo Paulo falando que a mulher não poderia sequer falar, e a questão do uso do véu, aquele símbolo que representava a autoridade e o controle masculino.

A lição é clara: o corpo e a voz da mulher não lhe pertencem. Se não podemos rir com gosto, se não podemos falar em público, se nosso vestuário é culpabilizado por casos de estupro, se nosso caos hormonal é medicalizado para não incomodar, então o nosso lugar é o do serviço mudo.

Temos permissão para sentir? Não, somos ordenadas a controlar. Temos lugar de falar? Não, somos orientadas a obedecer.

A minha luta, a nossa luta, é para romper a cartilha das princesas e reivindicar o barulho das vilãs. Não a maldade, mas o direito àquela gargalhada que é tão livre, tão poderosa, que não cabe no recato.

Minha existência, neste corpo que pulsa, sangra e sente, é o meu maior ato de rebelião. Se a vida exige que eu seja a árvore podada, eu escolho ser a que, apesar das tesouras, insiste em florir para além dos limites impostos, em um grito existencial que exige o direito não apenas de servir, mas de existir em toda a minha intensidade.


psicaroli © , All Rights Reserved. BLOG DESIGN BY