
Demorei muito tempo para entender por que o mundo sempre pareceu tão alto, tão confuso e tão cansativo pra mim. Por que eu observava tudo com tanto detalhe, por que sentia tanto, por que me perdia em pensamentos e silêncios quando o resto parecia saber exatamente o que fazer. Durante anos, achei que o problema era ser “demais”: pensar demais, sentir demais, querer demais. Só depois, já adulta, o diagnóstico de autismo trouxe um nome ao que sempre foi meu modo de ser no mundo.
Ser autista e psicóloga é, de alguma forma, viver entre dois espelhos. Um deles reflete o outro o tempo todo. Estar com pacientes, especialmente mulheres que também receberam diagnósticos tardios, é como reconhecer pedaços de mim que antes eu não sabia nomear. Às vezes, o que eu digo pra elas é algo que também preciso ouvir. Há um tipo de empatia silenciosa, uma cumplicidade que não precisa ser dita, porque nós nos entendemos nos detalhes invisíveis.
Mas nem sempre é fácil. A clínica exige presença constante, uma leitura fina das emoções e dos silêncios. E para alguém autista, isso pode ser exaustivo. Depois de um dia de atendimentos, meu corpo pede quietude. Fico horas em silêncio, quase em decomposição emocional, reorganizando as vozes e expressões que guardei durante o dia. E, ainda assim, eu não trocaria esse trabalho por nada.
Desde os meus 12 anos, eu sabia que queria ser psicóloga. Lembro com nitidez da primeira vez que li Harold e Maude – Ensina-me a viver. Eu me apaixonei pelas sessões de análise do Harold, por aquele universo de escuta, de profundidade, de tentar compreender o que não é visível. Na época, eu nem sabia a diferença entre psicologia e psicanálise, achava que eram a mesma coisa, e talvez isso nem importasse, porque o que realmente me movia era a ideia de olhar para a alma humana com curiosidade e respeito.
Na adolescência, eu mergulhei nos fóruns e comunidades do Orkut sobre psicologia, psicanálise, comportamento humano. Passava horas lendo, debatendo, tentando entender por que as pessoas faziam o que faziam. Eu não percebia, mas já ali se desenhava o contorno do meu hiperfoco: o desejo de compreender o humano em sua complexidade. Era mais do que um interesse, era uma necessidade existencial.
Hoje, trabalhar com o que amo é um privilégio, mas também uma forma de sobrevivência. A psicologia me dá linguagem. Me ajuda a nomear o caos, a organizar o excesso. E, quando consigo transformar o que um dia me feriu em ferramenta de cuidado, sinto que há um sentido nisso tudo.
A parte bonita de ser uma psicóloga autista é justamente essa: eu não aprendi apenas pela teoria, mas pela experiência. Entendo o que é mascarar, o que é tentar caber em lugares que sufocam, o que é buscar sentido onde ninguém mais parece ver. E talvez por isso, tantas mulheres que chegam até mim acabam se sentindo vistas pela primeira vez.
Ser autista me fez enxergar a psicologia com outros olhos. Me ensinou que não há neutralidade na escuta, há presença, humanidade, vulnerabilidade compartilhada. A cada atendimento, eu também aprendo a me compreender melhor.
