sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Cartografia do mês de janeiro


O mês de janeiro não é apenas um tempo no calendário; é um território. Para muitos, é um vasto campo branco de promessas; para outros, um terreno acidentado de ressacas emocionais e reajustes.

Nesta edição, compartilho a minha cartografia pessoal deste mês. Não são apenas recomendações de entretenimento, mas espelhos onde pude ver reflexos da condição humana — a angústia, o desejo, a fragmentação e a busca por um sentido que sustente a vida.

Aqui está o que vi, li e escutei, e o porquê de acreditar que isso pode conversar com o seu momento.

O Filme: Morra, Amor (Die, My Love)

Se há algo que a cultura insiste em higienizar é a ambivalência da maternidade e do casamento. Em Morra, Amor, somos confrontados com o oposto disso. A obra não pede licença para expor a asfixia de uma mulher que, aos olhos da sociedade, "tem tudo", mas que internamente vive em um cativeiro a céu aberto na zona rural.

Por que assistir: Porque precisamos falar sobre a loucura não como uma doença a ser extirpada, mas muitas vezes como uma resposta sã a uma vida insuportável. O filme toca na ferida do desejo feminino que não cabe na domesticação. Ele nos convida a olhar para as nossas próprias "prisões paradisíacas" e a reconhecer que amar e odiar, muitas vezes, habitam o mesmo cômodo psíquico. É visceral, incômodo e necessário para quem deseja sair da superficialidade das relações perfeitas.

A Série: I May Destroy You

Esta não é uma série sobre abuso sexual; é uma série sobre a reconstrução de um "eu" que foi estilhaçado. Arabella, a protagonista, nos guia por uma jornada não linear — tal qual o trauma — onde a memória falha, a negação atua como defesa e a raiva é um combustível vital.

O que me captura aqui é a complexidade do consentimento e da autoria. Quando algo nos é roubado (seja nosso corpo, nossa paz ou nossa história), como retomamos a caneta para escrever o resto do capítulo? A série mostra que a cura não é um processo limpo e ascendente. Ela é suja, confusa, cheia de recaídas e de um humor ácido que nos salva do abismo. Para quem lida com traumas ou com a sensação de ter perdido o controle da própria narrativa, essa obra é um estudo sobre como juntar os cacos e fazer deles um mosaico, não um espelho quebrado.

O Livro: O Lobo da Estepe (Hermann Hesse)

Em tempos de identidades tão fixas e rótulos tão rígidos, Harry Haller — o Lobo da Estepe — é um lembrete urgente da nossa multiplicidade. Harry acredita ser dividido em dois: o homem (burguês, polido, racional) e o lobo (selvagem, solitário, instintivo). Quantos de nós não vivemos nessa guerra civil interna?

A grande virada do livro, através do "Teatro Mágico", é a descoberta de que não somos apenas dois. Somos milhares. Somos um tabuleiro de xadrez com infinitas peças. O sofrimento de Harry vem de tentar espremer sua alma imensa em uma dualidade simplista. Ler O Lobo da Estepe é um convite a abraçar todas as suas versões — as aceitáveis e as sombrias. É um livro sobre a crise da meia-idade, sim, mas acima de tudo, é sobre a morte do perfeccionismo e o nascimento do humor como única forma de suportar a tragédia da existência.

O Clássico: Hamlet (Livro e Filme)

Seja lendo o texto original de Shakespeare ou assistindo a uma de suas inúmeras adaptações, Hamlet permanece como o tratado definitivo sobre o luto e a paralisia. O príncipe da Dinamarca não é apenas um homem indeciso; ele é um homem assombrado pelo fantasma do pai — uma metáfora perfeita para o peso das heranças familiares que carregamos.

Hamlet nos mostra o que acontece quando o luto não pode ser elaborado, quando o "não dito" apodrece no reino da Dinamarca (e da nossa psique). A famosa dúvida "ser ou não ser" não é apenas sobre suicídio, mas sobre a angústia de agir no mundo. Quantas vezes deixamos de agir porque estamos ocupados demais pensando, analisando, tentando prever o incontrolável? Hamlet nos ensina que o excesso de consciência pode ser, às vezes, a nossa maior covardia.

De cara limpa pra vida

Canal Literapia | Assistir aqui

Para fechar, uma recomendação que vai na contramão do ruído digital. Neste vídeo, somos convidados a uma reflexão sobre retirar as camadas literais e metafóricas que colocamos entre nós e o mundo.

A narradora, uma psicóloga junguiana apaixonada por livros, fala sobre a decisão de parar de usar maquiagem, mas o discurso transcende a estética. Ela toca em um ponto fenomenológico crucial: a vivência "pele a pele" com a existência. Muitas vezes, construímos armaduras (seja o cinismo, o intelecto excessivo ou a própria autoimagem) para nos protegermos, mas essas mesmas armaduras nos impedem de sentir a vida com a porosidade necessária. O vídeo é um lembrete gentil sobre a vulnerabilidade. Estar "de cara limpa" não é desleixo; é coragem. É a coragem de se apresentar ao outro sem a promessa de perfeição, diminuindo a dualidade entre "eu" e o "mundo". Para quem se sente exausto de sustentar personagens, esse vídeo é um respiro.


Espero que essas obras sirvam como bússolas ou, ao menos, como boas companhias. Até a próxima.

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