domingo, 28 de dezembro de 2025

Reflexão de final de ano


O fim de ano costuma nos empurrar para uma espécie de tribunal da eficiência. Somos intimados a prestar contas, a exibir troféus de mudanças concluídas e a projetar, para o ciclo que virá, uma versão de nós mesmos que finalmente (dessa vez com certeza) não hesite, não erre e não sinta medo. Mas, ao olhar para as páginas que preenchi e para as que deixei em branco, percebo que a vida não acontece na linha reta da meta batida, mas no desvio, na curva e, principalmente, na contradição.

Escrever, para mim, tornou-se esse exercício de "tomar posse da própria história". Não é sobre registrar o que fiz, mas sobre acompanhar quem estou sendo. E quem estou sendo raramente é uma figura coerente.

Lembro-me, inevitavelmente, de Clarice Lispector. Ela, que habitava o avesso das palavras, certa vez escreveu: “Terei toda a aparência de quem falhou, e só eu saberei se foi a falha necessária.” Essa frase me atravessa porque desmancha a lógica rasa do sucesso. Existe uma dignidade profunda na falha que nos permite continuar humanos. Às vezes, o que chamamos de fracasso em nossas listas de fim de ano é, na verdade, um desejo que amadureceu e já não cabe mais no corpo que habitamos hoje.

A escrita é o lugar onde essa "falha necessária" ganha contorno. No papel, não preciso resolver o conflito; posso apenas deixá-lo existir. Posso olhar para a minha fome de pertencer e, ao mesmo tempo, para o meu pavor de ser vista por inteiro. Como Clarice bem sabia, a coerência absoluta é uma fantasia que nos empobrece. O que pulsa, pulsa em tensão.

Para 2026, minha proposta não é a de uma autoajuda de desempenho, mas a de uma presença honesta. Em vez de prometer ser "melhor", desejo ter o rigor de ser mais verdadeira. Que tal uma lista que não peça redenção, mas acolhimento?

  • Honrar a repetição: Se volto aos mesmos temas, aos mesmos medos, talvez não seja falta de evolução, mas o sinal de que algo ali ainda pede cuidado. Repetir é insistir no que importa.

  • Valorizar a obscuridade: Não precisamos iluminar tudo. Há espaços internos que devem permanecer à sombra, protegidos da luz excessiva que cega. Escrever é ver o suficiente para não tropeçar no escuro, mantendo o mistério do que ainda não sabemos nomear.

  • Tolerar o inacabado: Que eu tenha coragem de anotar contradições sem a pressa de resolvê-las. Deixar perguntas abertas nas margens dos cadernos, permitindo que elas respirem.

  • Escutar o corpo que insiste: Quando a dor ou o cansaço se repetem, eles não são obstáculos ao "fazer", são a própria vida pedindo para ser lida.

Ao final, o que buscamos ao sentar para escrever não é uma solução, mas uma "pousada segura para nossas incertezas". Que em 2026 possamos ser nossos próprios anfitriões, recebendo com a mesma gentileza tanto a nossa força quanto a nossa inevitável, e tão necessária, capacidade de falhar.

Se você chegou aqui, te deixou essa reflexão: Você sente que suas listas de planos para o novo ano refletem quem você é hoje, ou são apenas ecos de quem você acha que deveria ser?

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