segunda-feira, 20 de outubro de 2025

O Perigo de estar lúcida

    

O livro de Rosa Montero não é uma mera coletânea de biografias de artistas atormentados nem um tratado de autoajuda disfarçado. “O Perigo de Estar Lúcida” é um ensaio corajoso, visceral, que desmantela a cômoda ilusão da normalidade. Para nós, que escolhemos trabalhar na fronteira do inteligível – na alma, em sua riqueza e escuridão – este livro soa como um relatório de campo, uma confirmação erudita de que o que sempre sentimos é, de fato, a condição da criação.

Montero nos convida a uma imersão na chamada “teoria da tempestade perfeita”: a ideia de que o momento criativo explosivo é o cruzamento de fatores químicos, ambientais e subjetivos irrepetíveis. É um aceno direto ao entendimento de que a sensibilidade exacerbada, muitas vezes patologizada, não é um defeito, mas um motor. A autora, com a bagagem de sua própria experiência com crises de pânico, usa a literatura e a neurociência para perguntar o que a “loucura” tem a ver com a arte.

E a resposta, que ressoa profundamente em quem trabalha com a psique e vive com uma mente turbulenta, é que a lucidez sobre o terror da existência é insustentável sem uma válvula de escape. O livro sugere que a criação não é apenas uma sublimação, mas uma estratégia de sobrevivência, um modo de construir uma realidade paralela quando a real é demasiadamente porosa ou dolorosa.
A psicóloga e a paciente: A conexão pessoal com o caos criativo

Como psicóloga, eu vejo a estrutura dessa obra como uma extensa sessão de análise literária. Montero desarma a dicotomia entre o “eu que sofre” e o “eu que controla”, buscando uma harmonia impossível entre desapego e sentimento. Essa busca pelo equilíbrio é o que nos consome e nos move.

Na minha vida, essa análise ganha contornos de crônica pessoal. Eu lido diariamente com o complexo e o quebrado no consultório, mas também carrego isso na minha própria constituição. A descoberta tardia do TEA na vida adulta explicou grande parte da minha hipersensibilidade e da minha percepção de “estar errado” no mundo. Eu estava, como Montero sugere, lúcido demais em um mundo que prefere o entorpecimento.

Essa lucidez, esse olhar sem filtro para a fragilidade humana e a minha própria, sempre foi o combustível da escrita. Lembro-me da adolescência e do começo da vida adulta, quando a poesia e os contos fluíam em um rio caudaloso. Eu me transcrevia para dar voz ao meu espírito, achando que aquela era a minha identidade de artista. Só mais tarde, ao refletir, como Montero faz com tantos gênios literários, percebi que a musa inspiradora era a 
depressão. A escrita era o sintoma criativo, a febre lírica de um organismo em sofrimento.

O grande pavor, que Montero tangencia ao questionar o que teria acontecido se muitos gênios tivessem se tratado, era que, ao calar a dor com a medicação, eu silenciaria a fonte. Minha musa, a angústia, era instável. Quando a instabilidade se tornava avassaladora, eu caía no labirinto do bloqueio criativo. O silêncio era duplo: o da vida e o da arte.

Por anos, adiei o uso de remédios, temendo que a sertralina me roubasse o acesso a essa profundidade, a essa liberdade de me expressar. Temia perder a intensidade em troca de uma “funcionalidade” vazia. Mas a vida, e o trabalho com a alma, me ensinaram que não há arte no colapso. A lucidez total é, de fato, um perigo mortal.

O paradoxo que a psicanálise sempre soube e que Montero explora é que, para criar, é preciso uma dose de estrutura. O remédio, no meu caso, não roubou a musa; ele apenas domesticou o caos o suficiente para que eu pudesse sentar e escrever. A sertralina, a química que me permite ser minimamente funcional, é a fundação que impede o prédio da minha mente de desabar, permitindo que eu continue sendo a cronista das almas, a que trabalha com o complexo não por escolha fácil, mas por necessidade existencial e profissional.

A criação salva, sim, mas a salvação, às vezes, vem em forma de um comprimido e de uma análise atenta de quem somos, não apesar, mas por causa de nossa complexidade.
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