quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Quando o Autismo encontra a TPM

A vida de uma mulher autista adulta diagnosticada tardiamente é, frequentemente, uma delicada dança de equilíbrio. Mas, se tem uma fase que derruba o palco inteiro e me joga para fora da sala, é a TPM. Não é apenas um “mau humorzinho”; é uma imersão na versão mais intensa e, francamente, assustadora de mim mesma.
Por anos, vivi a montanha-russa do ciclo menstrual como uma força da natureza contra a qual eu precisava lutar. A cada mês, os pensamentos ficavam mais tenebrosos, as emoções, mais brutais. Eu sentia uma desregulação emocional tão intensa que, sinceramente, questionava minha capacidade de “sobreviver” àqueles dias de terror.

Antes do diagnóstico de TEA, eu já sabia o nome desse monstro hormonal: Transtorno Disfórico Pré-Menstrual (TDPM). É uma forma potencializada da TPM, onde o sofrimento psíquico é avassalador. Mas foi somente após descobrir que sou autista que o quadro se encaixou. O autismo já exige de nós um esforço monumental de camuflagem (masking) e processamento sensorial. Quando a bomba hormonal da TPM/TDPM explode, todas as minhas habilidades de gerenciamento desmoronam. É como se a barreira sensorial que eu construo diariamente fosse dissolvida, me deixando crua e exposta.

Se o autismo é uma hipersensibilidade ao mundo, a TPM é a chave que gira e potencializa essa hipersensibilidade em 300%.

Fazendo as pazes com o útero
Chegar ao ponto de querer desistir de tudo, inclusive da vida, era o meu limite. Foi a âncora do tratamento medicamentoso (específico, receitado pelo meu psiquiatra) que tem me salvado nesses tempos sombrios. E eu não tenho vergonha de dizer isso. A medicação é uma ferramenta de sobrevivência, um respeito pela minha saúde mental e pela vida que eu construí.


Mas, além da ciência, o que tem feito uma diferença profunda é parar de lutar contra meus hormônios e tentar, aos poucos, fazer as pazes com o meu útero. Eu sou uma incorrigível adepta da ideia de que todas as coisas cooperam para o meu bem. Sim, mesmo a cólica que me faz sangrar e me joga no chão; mesmo a sombra emocional que ameaça consumir meus pensamentos. Eu busco a lição na vulnerabilidade. A grande lição que a TPM me dá é esta: Eu não sou uma máquina. Eu tenho limites, e eles são reais.

Tempos de reclusão e bolo


Nesta fase crítica, minha principal estratégia é o recolhimento. Eu me torno ainda mais reclusa do que o normal. Evito interações sociais desnecessárias, fujo de multidões e, se possível, do barulho. Meu desejo profundo é tomar um chá quentinho, me aconchegar e ler um livro, ignorando o caos externo.

No entanto, a vida não para. Eu sou psicóloga, sou esposa, sou mãe. Tenho pratos para equilibrar. E é aqui que entra o autocuidado não-negociável:

Respeito profundo: Eu respeito meus limites o suficiente para suspender atendimentos se eu não estiver genuinamente bem. É um ato de respeito por mim e pelas minhas pacientes, que merecem o meu melhor. Não sou útil a ninguém se estou desregulada e esgotada.
Comida de conforto sem culpa: Esqueça a salada. Meu corpo pede energia e conforto. Eu me entrego ao prazer sensorial do bolo com bastante cobertura e daquela bela e deliciosa coxinha de frango. É nutrição para a alma autista que está em sobrecarga.
Priorizar o mínimo: Se a energia é escassa, a prioridade é a sobrevivência: tomar banho, comer algo e respirar. O resto pode esperar.


A TPM/TDPM, quando somada ao TEA, é uma experiência de desmantelamento. Mas ela também é um lembrete mensal de que precisamos honrar nossa neurodivergência com mais pausas, mais compreensão e, se necessário, com auxílio profissional e medicamentoso.

Não podemos eliminar os hormônios, mas podemos criar um sistema de suporte pessoal que minimize o caos e o sofrimento. Aprender a ceder um pouco no social e ceder um pouco mais ao conforto é a minha lição de casa mensal.
A âncora está lançada. Agora é tempo de chá, coxinha e, quem sabe, um novo capítulo para ler enquanto a tempestade passa.

Minhas pequenas âncoras para o ciclo:
Agendamento da trégua: Tentar agendar compromissos de alta demanda para a primeira metade do ciclo.
Comunicação clara: Informar o parceiro ou família que “hoje estou no modo sobreviver” para gerenciar expectativas.
Kit sensorial: Deixar fones com cancelamento de ruído e o cobertor pesado sempre à mão.


Se você se identificou com essa dança caótica entre o ciclo hormonal e o espectro, saiba que você não está sozinha. Reconhecer a intensidade dessa luta não é fraqueza; é o primeiro passo para criar estratégias de autocuidado realistas e sustentáveis.
Lembre-se: O autismo não desaparece com a mudança de fase lunar, mas a forma como você lida com ele pode (e deve) se adaptar. Seja gentil consigo mesma. Você merece o conforto da coxinha, do chá e de pausa.
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