A Hora da Estrela não é apenas a história de uma nordestina pobre no Rio de Janeiro; é a crônica dolorosa do não-ser, do sujeito que mal se constrói. Li esse livro pela primeira vez quando eu tinha apenas 7 anos de idade. Foi amor a primeira vista. Me apaixonei pela escrita da Clarice Lispector e nunca mais me esqueci da Macabéa.
O que me toca em Macabéa é a sua ausência de defesa. Ela é a representação mais nua de como a vida, o mundo e as relações falham em nos oferecer o material básico para nos tornarmos “alguém”. Sua forma de se relacionar com o mundo é um eco de uma falta. Quando ela fala, as palavras saem truncadas, sem peso, sem o sentido que a gente espera. Ela está constantemente tropeçando na linguagem, nessa estrutura que nos define e nos insere no coletivo.
Por isso, a Macabéa que enxerga o mundo é quase um autômato. Ela não questiona a própria existência, não reflete sobre a sua dor — ela apenas é, de um jeito bruto e resignado. É a famosa “incompetência para a vida”, que é, na verdade, uma incapacidade de usar as ferramentas que a sociedade oferece para se fazer notar, para desejar e para dizer “eu sou”.

Macabéa vive num estado de economia existencial. Ela gasta pouco de si mesma, tem medo do gosto, do desejo, da alegria, como se sentir demais pudesse antecipar o castigo. Viver assim é uma defesa contra a dor, uma forma de garantir que, caindo, ela não passa do chão. A dor que ela sente, aquele “doer dentro” inexplicável que a faz tomar aspirina, é o vestígio de algo mais profundo que não conseguiu se manifestar, o sintoma mudo de uma alma que foi esvaziada antes de florescer.
No entanto, o mais belo e trágico em sua jornada é a busca pela singularidade, ainda que inconsciente. O encontro com Madame Carlota é um divisor de águas. Não porque a cartomante lhe diga a verdade, mas porque ela lhe oferece algo que sempre lhe foi negado: palavras de poder. Pela primeira vez, Macabéa é vista, ouvida e nomeada como alguém com um futuro. Essa injeção de esperança é um despertar, uma “pulsão” de vida que a impulsiona para a rua com uma nova percepção de si.
A relação com Olímpico e a confissão do criador
Se Macabéa era o não-ser em estado bruto, Olímpico foi a primeira e última forma de Outro que ela encontrou para tentar se definir. E que encontro amargo!
Aquele relacionamento não era um idílio; era, antes, um espelho profundamente rachado. Olímpico, também ele um flagelado social, um nordestino ambicioso e cheio de delírios de grandeza, precisava da Macabéa para poder se ver como mais. Ele a usava como um território negativo onde podia depositar toda a sua miséria e carências. Ao humilhá-la, ao apontar sua ignorância e seu corpo esquálido, Olímpico tentava se elevar, tentando convencer a si mesmo de que ele pertencia ao mundo do “ter” e do “saber”, e não ao “não-ter” e ao silêncio dela.
O que Macabéa buscava nele não era o amor romântico, mas o conhecimento. Para ela, Olímpico era a encarnação do Saber sobre a vida, sobre o Rio de Janeiro, sobre “as coisas”. Ela o escutava com devoção quase religiosa, porque ele falava, e falar era o que ela não conseguia fazer com substância. Ele a nomeava, mesmo que com palavras cruéis. E a nomeação, mesmo que para abjeção, é um ato de reconhecimento da existência. Macabéa, em sua fragilidade narcísica, aceitava a palavra áspera porque ela era, afinal, a única palavra dirigida a ela.
O rompimento é o golpe de misericórdia. Quando Olímpico a troca por Glória — a colega de trabalho, filha do açougueiro, que tem mais presença social, mais corpo e a promessa de uma ascensão econômica (o pai açougueiro, a carne, o dinheiro) —, ele apenas consuma o destino de Macabéa. Ela é rejeitada não por falta de amor, mas por falta de valor simbólico e social. Ela não era uma opção no mundo das trocas sociais, não servia para a narrativa de sucesso que Olímpico tentava desesperadamente construir para si. E Macabéa aceita, porque como lutar por algo que nem sequer se sabe desejar?
Mas a história de Macabéa só existe porque há o olhar agônico de Rodrigo S. M., o narrador.
Ele é o homem das palavras, o intelectual de classe média, que se coloca no palco não para contar a vida dela, mas para confessar a sua própria culpa e o seu próprio pavor existencial. Rodrigo se sente compelido a escrever a “hora da estrela” como um ato de redenção, uma tentativa desesperada de dar corpo e sentido a uma existência que é, em essência, um zero.
A luta de Rodrigo para “criar” Macabéa é a luta de quem confronta o vazio. Ele olha para a miséria dela e percebe que o seu próprio “ser” (sua existência privilegiada, sua intelectualidade) é construído sobre a não-existência dela. A angústia dele é a nossa: a dificuldade de estar-com o Outro que é radicalmente diferente e a impossibilidade de traduzir a experiência nua da vida em palavras.
Ao se identificar com Macabéa (”eu podia ter nascido ela”), ele tenta preencher a distância. A escrita se torna um campo de batalha onde ele tenta não apenas narrar, mas ser a dor dela, assumindo a responsabilidade por cada frase. Macabéa, a silenciosa, se torna o catalisador para a grande reflexão existencial do narrador: o que significa ser no mundo quando o “ser” é apenas a soma das carências, do silêncio e da incapacidade de se nomear?
Rodrigo S. M. transforma a vida de Macabéa em uma pergunta sem resposta, uma flecha apontada para a fragilidade da condição humana. Ele nos obriga a testemunhar o silêncio da moça, e ao fazer isso, ele nos força a encarar o nosso próprio potencial de nulidade. A única vitória de Macabéa, o momento de sua estrela, é que ela, a incompetente, consegue, através da escrita do Outro, nos inquietar para sempre.
É nesse momento, no auge de uma fugaz e mágica possibilidade de ser, que acontece a sua “hora da estrela”. Ela é atingida e, no asfalto, prestes a morrer, experimenta uma iluminação. A consciência de si, a plenitude do ser que lhe foi negada em vida, irrompe no instante final. É o paradoxo cruel: só na fronteira com o nada, no momento da morte, é que Macabéa se torna inteira. O vazio que a constituiu se preenche, e ela, a nordestina ignorada, vira estrela – a estrela que, ironicamente, só pode brilhar quando se consome. Sua morte não é apenas o fim da história, é o ápice de sua existência, o único momento em que ela consegue ser, por um breve e luminoso instante, dona de si e de sua verdade.
