Aos trinta e quatro anos eu recebi o diagnóstico tardio de autismo. Como psicóloga, eu tinha as ferramentas para decifrar o sofrimento do outro, mas vivia a minha própria estranheza como um fracasso moral durante todo esse tempo. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo, deram outros nomes, outros diagnósticos, ansiedade, ciclotimia.. depressão.. mas autismo? autismo não era coisa de criança? eu não era um garoto branco, eu era uma mulher, uma mãe, uma profissional da área da saúde. Como assim eu sou autista?
Nós, mulheres diagnosticadas tardiamente, somos mestres da mimese. Aprendemos a ler o ambiente como se fôssemos espiãs em território inimigo. Cada olhar sustentado, cadaSmall Talk suportada, cada textura engolida no seco foi uma pequena mutilação do meu ser. A sociedade não quer que sejamos autistas; ela quer que sejamos "normais o suficiente" para não atrapalhar o fluxo do capital e da convivência.
O capacitismo diário é esse "elogio" venenoso: "Mas você é tão inteligente, nem parece autista". O que eles estão dizendo, na verdade, é que a minha deficiência só é válida se eu for incapaz. Se eu sou produtiva, se eu sou psicóloga, se eu sou mãe, então meu diagnóstico é "frescura". Eles negam a minha dor porque ela é invisível, e negam a minha existência porque ela os obriga a rever o que entendem por humanidade.
O sentido da vida passa pela verdade. E a minha verdade é que eu habito um mundo ruidoso, tátil e caótico com uma pele fina demais. O diagnóstico aos 34 anos foi o momento em que parei de pedir desculpas por existir. É a transição dolorosa da culpa para a dignidade.
Dói admitir que fui cúmplice do meu próprio silenciamento, mas o incômodo que esse texto causa é necessário. Se a minha verdade te agride, é porque a sua "normalidade" é construída sobre o apagamento de todos nós que não encaixamos.

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