Vivemos tempos de uma urgência anestésica. Queremos o alívio como quem aperta um interruptor para apagar a luz de um cômodo desconfortável. E, curiosamente, essa pressa chegou até os nossos consultórios e processos de autoconhecimento sob um disfarce sedutor: a palavra Aceitação.
Muitas vezes, o que chamamos de aceitação é, na verdade, um golpe do ego.
O sujeito diz a si mesmo: "Vou aceitar que estou triste, vou dar um lugar para essa angústia", mas, no fundo de sua intenção, existe um contrato secreto com a vida. Ele aceita na esperança de que, ao ser "bonzinho" com a dor, ela se sinta lisonjeada e vá embora. Ele usa a aceitação como uma moeda de troca para o alívio.
Isso não é aceitação; é esquiva experiencial disfarçada de virtude. É tentar enganar o próprio fenômeno. Quando aceitamos para "parar de sentir", ainda estamos tratando o nosso mundo interno como um erro a ser corrigido, um inimigo a ser sedado. É o desejo de ser um observador imune à própria existência, como se pudéssemos assistir à nossa vida sem sermos afetados pelas intempéries que ela nos lança.
A verdadeira aceitação não tem nada a ver com gostar do que se sente ou com a passividade da resignação. Ela é, antes de tudo, um ato de hospitalidade radical. É receber o hóspede indesejado, a ansiedade, o luto, o vazio, não porque queremos que ele se mude logo, mas porque ele já está na sala. Ele é um dado da nossa realidade presente.
A aceitação autêntica é o que nos permite caminhar. Enquanto eu luto para não sentir o que já estou sentindo, toda a minha energia vital é consumida nesse front de batalha interno. Eu fico estagnado, paralisado na tentativa de "resolver" o meu sentir para só então começar a viver.
O deslocamento ético acontece quando paramos de perguntar "Como faço para isso parar?" e começamos a questionar: "Isso está aqui agora, e o que eu vou fazer com a minha vida apesar disso?"
Aceitar é desistir da guerra. É reconhecer a nossa faticidade, aquilo que nos é dado e que não controlamos. É o suspiro profundo de quem para de empurrar a parede e decide dar um passo ao lado para continuar o trajeto.
A cura não é o fim do desconforto. A cura é o fim da resistência que nos impede de ser quem somos, com toda a inteireza e as fissuras que a condição humana exige.
