quinta-feira, 26 de setembro de 2019

O Jardim dos esquecidos - Minha primeira visita no CAPS


Na boca do rio tem uma casa...

E se aquela casa falasse, o que ela diria? Quantas histórias passaram por aquela porta, quanta dor aquele chão sustentou? O que viram aquelas paredes que foram pintadas com a cor da loucura? Gosto de lembrar que, ironicamente, eu não sabia o caminho que me levaria até lá, mas que o encontrei. Eu poderia dizer que foi a facilidade da tecnologia que me permite viajar pela cidade de um modo confortável, mas o GPS do uber não foi a minha única bússola. Meus olhos não contemplariam o presente se eu não tivesse decidido mantê-los bem abertos. Eu escolhi o caminho da ressignificação. A estrada permanece esburacada, o ar permanece fétido, pois a humanidade é a mesma e ela cheira a esgoto, mas eu ainda estou aqui.

 A casa é enorme, chegamos mais cedo do que o planejado. Eu quase não fui, mas dessa vez não foi por motivos fatais, mas pelas intercorrências da vida, essas coisas doidas que nos afetam sem avisar, nos mostrando que não adianta a gente achar que está no controle. A enfermidade aparece para nos roubar todas as certezas. Tive uma noite difícil. Meu coração, aquele que pulsa fora do meu corpo, adoeceu, e a minha alma quase adoeceu junto. Consegui sustentar, pois a melhor maneira de sair de uma tempestade é passando por ela. E eu passei. Ainda estou encharcada, acabei pegando um resfriado, mas olhem pra mim, eu estou de pé. O que é uma gripe afinal? A existência é a febre que mais queima. 

Haviam quadros por todos os lados. Pinturas que revelam e deixam o inconsciente a céu aberto. As mãos que os pintaram deram cor ao sentir. Muitos tons, rostos, flores, figuras incompreensíveis, como aqueles sonhos estranhos que temos quando dormimos, e que ao despertar, não conseguimos decifrar. Um emaranhado de símbolos, códigos secretos de um Eu que grita e se liberta através do pincel. O tambor ressoa. Música. Um dos instrumentos terapêuticos mais eficazes que o mundo conhece. Barulho é o que a nossa mente faz quando quer silêncio e não encontra, barulho é o que a gente produz quando não conseguimos dar sentido ao que sai da nossa boca. Aquilo era música. Uma saída. Um escape. Aquilo era arte. É arte. 

Um deles veio me cumprimentar, segurou e beijou minha mão delicadamente enquanto me falava coisas em um idioma que eu não conheço porque não é o meu. A loucura tem sua própria linguagem, mas cada louco tem o seu próprio jeito de se expressar, seja verbalmente, fisicamente, em todos os sentidos o louco é singular. A língua dele é dele, a minha é só minha, a gente até compartilha, mas somos detentores do nosso próprio dicionário particular. "Alguns deles não tem ninguém no mundo." Será que eles tem consciência dessa solidão? Isso me faz pensar que se isso for um fator de sofrimento, tá explicado a nossa escolha pela ilusão de que temos laços que nos amarram e não nos deixam soltos, quando na verdade, estamos todos nus e sós. Quanta lucidez a gente é capaz de suportar sem querer pular da ponte? Um boleto para vencer e muitos já se afogam em um copo de cachaça barata. Qual o mistério dos que seguem em frente, mesmo sabendo que não há mais chão pra caminhar? 

São muitas perguntas. Poucas respostas.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

A vizinha


Era só uma estranha, mas bateu na minha porta implorando por minha ajuda, sua alma desesperada precisava com urgência de ouvidos e ombros amigos para desabafar. Cedi os meus por pura empatia, pois já tive a infelicidade de ter sido traída, conheço a dor de ser enganada, e a sensação de ter o coração esmagado pelas mãos de quem já nos acariciou um dia. Doí, doí pra caramba.

Dei conselhos baseados nas minhas feridas já cicatrizadas, mostrei minhas marcas de sobrevivente, e contei meu testemunho de ressurreição. É possível renascer das cinzas, é possível amar e ser amada com o mesmo peso e na mesma intensidade, é possível ser feliz, existe vida após a morte, e o próprio Jesus superou seu Judas. Nada é impossível e o tempo é um santo remédio. 

"- Vai passar menina." Te falei, e será que um dia poderei te dizer "Eu te disse"?

Quem sabe.

Até essa manhã dividíamos a mesma parede, a mesma varanda, e em algumas noites, fatias de pizza. Te ofereci minha mão, e tu quis meu braço. Entrou na minha casa, invadiu minha cozinha, usou  meu banheiro, sentou no meu sofá, abusou da minha boa vontade me fazendo ouvir histórias da sua infância, seus medos e anseios, seus sonhos, e nem se quer perguntou se eu estava interessada em saber da história dos seus parentes, da sua tragédia familiar. Foi inconveniente, tentou enfiar teu Jeová na minha goela abaixo, enquanto eu cansada, respirava fundo, lutando internamente pra não ser rude e te expulsar, como no fundo eu queria fazer. Éramos só vizinhas, mas tu se comportava como se fossemos irmãs. Tão ingenua. O tempo também vai te ensinar que nem todo mundo é amigo. 

Mas agora você foi embora, e seu abraço de despedida encheu meu coração de lágrimas, pois não foi somente sua ex casa de aluguel que ficou vazia, minhas noites também, meu sofá também, e agora me dei conta de que nunca mais escutarei seu choro atravessando as paredes da casa, que nunca mais te ouvirei cantar as músicas da Marisa Monte enquanto lava roupa na pia, para depois estende-la preguiçosamente na corda que dividíamos. Seu livro ficou na minha estante, e você na minha memória. Seríamos ótimas amigas se o tempo e as circunstancias tivessem permitido, mas nem telefone trocamos, pois deixei claro o quanto odiava manter contato com as pessoas, principalmente se ela estivesse do outro lado da linha. Vou comer papel como tu recomendou, e vai ser uma pena não poder te dizer se achei o gosto bom ou ruim.

Que Deus abençoe sua caminhada menina de peixes, e que o câncer não faça parte nem do seu mapa astral. Boa sorte.

"Quero que você seja feliz. Hei de ser feliz também... "

A Taverna


Entrei naquele bar com ar de bordel e cheiro de hospital, me deparei com um mar de loucos de todos os tipos e níveis de loucura que existe. Todos falando sem parar, flertando com a morte, e fazendo piruetas com a corda no pescoço. Era um verdadeiro show pra vê quem chamava mais atenção, pra vê quem gritava mais alto. Uma competição de dores e lamentações.

Mulheres carentes flertando com seus seios amostra, implorando por elogios, e homenagens de todos os que tivessem olhos para consumir seus nudes. Homens complexados, com egos machucados, corações partidos e chifres na cabeças, que exibiam seus falsos sorrisos em troca de peitos na fila do banheiro. O cheiro de cigarro era forte. Bebiam Vodca como quem bebe água. A ressaca era braba.

Aquele lugar é o reino das tretas. Confusões acontecem a qualquer momento. É socos e pontapés pra todos os lados. A dona, uma mulher linda e loira, é o humor em pessoa, sempre consegue colocar ordem na bagunça mas não antes de atirar algumas lenhas na fogueira.  É circo em forma de caos.

Machistas e religiosos nunca são bem vindos. Babacas de qualquer outra espécie também não. É uma bagunça organizada, com direito a regras e tudo. Essas regras sempre são quebradas por alguns desavisados, que são expulsos a chutes  e proibidos de voltarem novamente. É o famoso BAN que todo mundo tem medo. Ninguém quer ser banido por aquelas bandas.

Alguns usam máscaras para não serem reconhecidos. Se sentem melhor fantasiados, temem ser reconhecidos e julgados pelos parentes e conhecidos que por ventura passarem por lá. E o o motivo principal deles se esconderem, é que não querem expor suas cicatrizes. São homens e mulheres de todos os lugares, de todas as idades, que foram unidos por suas marcas, entrelaçados por suas lágrimas, é uma aliança tarja preta. Escorregar em vômitos é comum. Vomitar sobre os vômitos também. Não é um ambiente limpo, muito menos saudável. Às vezes acontece de você se deparar com alguém defecando em algum lugar indevido, como em cima da mesa por exemplo.

Todos os fregueses estão doentes, até mesmo alguns doutores que aparecem lá de vez em quando, caçando clientes para seu consultório. O nome desse bar é bem óbvio: "Depressão", mas todos os CID tem passe livre. Bipolares, Border, esquizofrênicos, ansiosos..todos unidos pela camisa de força e  reunidos em busca da paz, do alívio, dos sorrisos.. da esperança de dias melhores, esperando a chuva passar..

Eu entro, eu saio. Eu entro novamente, porque esses doidos preenchem os meus dias. Nossa solidão se encaixam, se entendem. Estamos todos no mesmo barco, torcendo pra que ele afunde depressa, quando na verdade só queremos nadar, nadar, nadar e não morrer na praia. Queremos a tal da boia da felicidade.

Que o vento cesse. Nosso objetivo é sobreviver.

Jane


Esbarrei-me em uma manhã qualquer, com uma garota na porta do bar. Ela usava uma máscara que me lembrava um útero, e aquilo me chamou atenção.  Entramos e tomamos um café, e no meio de tantas conversas, parimos uma amizade. Mesmo sem vê quem de fato estava por trás daquela fantasia, ela me cativou. Desde então conversamos todos os dias. Sua voz é doce, seu sotaque é leve. É uma tagarela, cheia de energia e com um brilho que encanta muita gente.

Certo dia nos encontramos no banheiro, e eu a vi sorrindo pro espelho. Conhecer sua face só me fez perceber que ela não é linda apenas por dentro. Dizem por aí que quando gostamos de algum amigo mesmo sem ter visto seu rosto, é porque nos apaixonamos pela alma dele. Faz sentido.

Ela me chama de gêmea. Nos gostamos de graça. Essa amizade estava escrito nas estrelas. E o que Satanáries uniu, treta nenhuma separa. Ela não sabe quem ela é, está em crise existencial. No fundo estamos todos perdidos.  A vida é um baile de máscaras. O jeito é dançar conforme a música.

Espero que um dia a gente se encontre fora do bar. Podemos marcar pra irmos comer uma pizza de calabresa. Quero vê se mineiros comem pelas beiradas mesmo. Quem diria que no meio de tanta gente perdida, nos encontraríamos. Estamos sem rumo também, mas pelo menos podemos nos apoiar.

Que o universo conspire ao nosso favor. Arianas unidas, jamais serão vencidas!

Texto escrito em 2015, inspirado em pessoas que eu conheci em um grupo sobre Depressão.

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